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quarta-feira, 20 de julho de 2016

‘Um Dia Perfeito’ é aquele com Benicio del Toro à frente

 
Nem tudo o que parece é verdade. Aviso logo: alerta spoiler!

Mas, uma coisa é certa, assista! Porque a fotografia é bárbara; nada sai do lugar. Nenhuma luz nem ângulo foram escolhidos à toa. Tudo faz sentido e uma das coisas mais belas do filme é quando não há diálogo, nas cenas em que o grupo humanitário percorre caminhos ermos durante a guerra. Acompanha uma trilha sonora primorosa que eleva o rock à batida angustiante e cadenciada e, sim, é impossível, mesmo nos momentos tensos, não perceber sua batida.

O longa, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2015, é dirigido por Fernando León de Aranoa e estreia na quinta-feira, dia 21 de julho.

Vamos aos fatos:

1 – O título é uma bela de uma ironia. Pense em situações que dão raiva justamente porque só dão errado. Pois é, é a guerra. E durante uma hora e meia você é lembrado disso constantemente.

2- O personagem de Tim Robbins, o veterano B, é um brincalhão. A vida dele é salvar pessoas e dar a elas um pouco de dignidade em épocas de conflitos. Lindo. Até que você percebe que atrás dessa solidariedade se encontra um cara completamente sozinho que esconde uma tristeza sem fim.

3 – Ele implica tanto com a novata Sophie, interpretada por Mélanie Thierry, que a todo momento eu imaginava Mambrú, o empoderado Benicio del Toro, vindo salvá-la. E, claro, formarem um belo casal. Balela. Ele se engraça com outra.

4 – Ou tenta. Não, melhor. Foge. Porque se a coisa fosse boa mesmo ele teria se rendido – novamente – aos encantos de Katya, vivida por Olga Kurylenko. Os dois tiveram um caso no passado e a tensão sexual fica no ar quase em todas as cenas que os dois estão juntos.

5 – Mas não rola nada. Pois é, esse não é um american movie. É muito melhor, queridos!! É um espanhol digno da safra de 2015.

6 – Nikola (Eldar Residovic) é um menino mimado que quer porque quer uma bola. Mas, poxa, o momento é de guerra, nos Balcãs de 1995 ainda por cima... tenhamos pena. Não só nós, Benicio del Toro também teve.

7 – Tanto que a tônica e todas as metáforas do filme tem como base a história do garoto. Brincadeiras à parte, é delicado e bonito sem ser piegas.

8 – Lá pelas tantas se consegue uma bola para a criança. Já falei que tem minas em todos os lugares e esse é um perigo iminente? Pois é. É daí para pior. Afinal, é a guerra. E a bola pula e a bola quica e a pula foge e a bola volta. Até que... não, nenhuma mina é detonada.

9 – Enquanto tudo isso acontece – tudo porque tem mais, muito mais, não contei nem a metade - o enredo principal se desenrola: o grupo está em busca de uma corda para tirar o defunto que foi jogado num poço e contaminou a água usada pelos moradores do vilarejo. Pois é, é a guerra.

10 – And the last, but not the least: lembra que falei da trilha sonora? Então, lá vai uma palinha. Procure no You Tube por Lou Reed e The Velvet Underground - There Is No Time e Venus in Furs, The Ramones - Pinhead, Gogol Bordello - East Infection  e Marilyn Manson - Sweet Dreams (Are Made of This), além de Where Have All the Flowers Gone na voz de Marlene Dietrich, que deixei aqui prontinho para você dar play.




***Todas as fotos são de divulgação da Esfera Filmes.




quarta-feira, 6 de julho de 2016

Dia do beijo e agradecimento a tão querida internet!


Hoje é o Dia do Beijo! Sim, a beijoca é comemorada aqui e no resto do mundo. Claro que a internet faz a minha - a sua e a deles também - vida mais feliz, selecionei algumas das piadas que estão sendo compartilhadas no Twitter.  

Como uma imagem vale mais que mil palavras, vamos a elas:











terça-feira, 21 de junho de 2016

O amor cega

 
O amor cega

O amor cega.

Já o meu, na contramão, tece e mantém os olhos bem abertos. Eu o vi e reconheci. Sabia que ali morava a troca, as realizações, os aprendizados e as carências. Ali estava meu melhor companheiro.

Olha, mas olha mesmo! Aqui, já tão perto, está minha paixão.

Mais que carinho, afinidade, gostos similares... meus olhos não viram um namorado, nem um melhor amigo. Embora não seja fácil achar um bom parceiro de viagem, mas esse seria mais. Guardávamos já muitas historias em terras distantes e emoções tão fortes quanto por aqui.

E o sentimento eu acertei logo de cara. Ora, diriam os tolos, como sabe?

Eu sei! E isso basta!

Mentia.

Eu sei por associação. Sei porque já senti, porque já vivi , porque já amei.

Ao contrario da primeira vez, meu amor foi à primeira vista. Eu, boba, desacreditava desse jeito romântico de conduzir e explicar as coisas. Enganei a mim mesma.

Meus olhos viram! E gostaram rapidamente do que estava à frente. E, digo mais, gostaram tanto que nunca mais se atreveram a tirar de você.


No fim, eu aprendi que o que meus olhos veem, o meu corpo sente inteiro sente instintiva e imediatamente. 



terça-feira, 14 de junho de 2016

Entre coordenadas e liberdades



Entre coordenadas e liberdades

Já estava quase indo embora”... sim, essas foram as primeiras palavras – austeras – que pronunciei para o Felipe. Ele tinha demorado muito – ok, dez minutinhos além do combinado – e eu já estava de saco cheio de esperar. Ele deve ter me achado ou maluca ou cheia de atitude, já que nos papos pela internet eu não tinha mostrado as garras.
Não me lembro do que ele disse, mas de qualquer forma, contornou bem a situação. 

Fomos andando sem muitas palavras e nos sentamos do lado de fora de um bar que outrora foi refúgio meu e de outros pares.

Hora de ressignificar!

Conversamos sobre a vida, sobre o filho dele, sobre as viagens, nas furadas que nos metemos em viagens, o que eu teria feito se fosse ele e o que ele fez sendo ele mesmo. No final, acertamos os signos e ascendentes e nos beijamos. Felipe só faltou ser condescendente com sua lua em leão, o que de longe não é o meu forte.

Marcamos o segundo encontro. Eu não estava animada, muito menos curiosa. O que me encorajava no início não fez nem cosquinha dessa vez. Afinal, o inesperado, a expectativa e o desconhecido é o que me moviam na noite em que nos conhecemos. Parece que tudo já perdera a graça.

Mas, dei a oportunidade.

Felipe passou às oito horas para me resgatar de um aniversário de uma amiga. O clima estava bom e, por um momento, pensei em dar o bolo no gatinho. Mas, tamanha era a vontade dele em me ver... que resolvi respeitar o moço. Me aguardavam um beijo e um abraço daqueles difíceis de desgarrar. 

Gostoso. 

E assustador.

Sufocante.

E ameaçador.

Deu medo do futuro e um filme passou pela minha cabeça. O dominador leonino intimidaria toda e qualquer liberdade da mulher taurina.

Criei meiguice.

E criei dissimulações.

Vieram fraudes.

E choveram pretextos.

Ao fim, criaram-se feras.


E desenvolvi asas.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desapega!


Desapega!

Desapega de mim. Para de me procurar em horários impróprios. Sabia que eu durmo? Que eu trabalho? Que eu tenho meus casos e não quero ser incomodada na minha intimidade?

Passou. Desapega. Não quero encontrar você na saída do curso. Não quero ver tua cara. Não quero surpresa. Não quero preocupação quando sua sogra não tá bem.

A minha vida tá ótima. Sem você. Não entendeu que a minha vida é sem a sua? Já foi. Já foi a mesma. Já foi uma só.

Não é mais. Eu e você não somos mais. Me deixa livre. Me deixa sofrer sozinha. Você perto não ajuda. Me deixa respirar. Me deixa falar com quem eu quero, usar o vestido que eu escolhi, voltar pra casa a hora que me der na telha.

Desapega! E larga meu braço, eu tô pedindo.

Não me machuca.

Me esquece, me larga e segue tua vida.

Apaga meu número do seu celular, esquece a hora que acordo e do meu cansaço no fim do dia. Não pergunta como estou.

Não quero você perto. Não quero saber se engordou, se emagreceu, se planeja viajar, se comeu direito, se comprou a blusa que queria nem qual bar você anda frequentando.

Desapega! Se cruzar comigo, atravessa a rua. Finge que não me conhece.

Já falei para me largar.

Larga, tá me machucando.

Vai embora! E leva contigo tudo que me fez apaixonar. Vai com esse sorriso de canto de boca, com suas ideias revolucionárias, com seu feminismo arrebatador. Não quero seu olho no meu. Nem sua mão na minha.

Vai. E não vira.

Vai!

Já falei pra ir?


Já foi?



segunda-feira, 28 de março de 2016

Debaixo dos caracóis


Debaixo dos caracóis

Seus cabelos! Ah, esses cabelos. Tem cabelo por toda a casa. Como é que pode?

Luuuuuuuiiiiiiiiizzzzzzzzzz!

- Quê que você faz pra cair tanto cabelo desse corpitcho?

- Eu?...

- É... não tá vendo? Tem pêlo por toda a casa. Quero ver se um dia eu levar um tombo por causa disso, dessa sujeira acumulada.

- Mas... tombo? Não, não pode...

- E não é pentelho, não. É cabelo mesmo. Como é que pode , Jesus?

- Eu preciso...

- Precisa!!!  Ah, precisa. Se precisa, né, Luiz? Tomar uma providência.

- Tava pensando que...

- Por que você não vai ao médico? Ele vai dar um jeito nisso rapidinho. Aliás, por que ainda não foi? Afinal, esses cabelos não começaram a cair agora, né? Eles sempre caíram? Por que só a gora que eu tô percebendo isso? Tá sujando a casa toda! Luuuiiizzzzz

- Oi, tô aqui.

- Pega lá a pá.

Ele faz que sim com a cabeça e vai até a área como um menino obediente.

- Você almoçou direito hoje?

- Sim, comi a quentinha que você preparou pra mim.

- Ah, é. Tava gostosa?

- ô!

- Tem mais. Você quer mais?

- Tem? Se tiver eu quero!

- Tem chuchu, deixa essa pá aí. Deixa tudo aí de qualquer jeito.

- Mas, mulher...


Os segundos param.

Ela balbucia lu-iz.

Antecede num suspiro, quase que um soluço incontrolável, e o chama. Luuuizzzzzzzz!


Eu já devia prever que a vida de recém-casado é assim, em cada surpresa uma transa. 



terça-feira, 1 de março de 2016

‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn


‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn 

E depois do amor, fazer o quê? É matar ou morrer! Ou você corre atrás de explicações, enredos que não deram certo, lembranças inacabáveis e sonhos não percebidos ou você se acaba. Acaba a luz, o ar, a motivação e o viver o amor de novo.

Na peça “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”, em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Vannucci - Shopping da Gávea, Daniele Winits dá vida à sex symbol e Maria Eduarda de Carvalho vive sua antagonista, Margot Taylor. As duas rivais recordam os amores vividos – e bem vividos – e travam uma batalha regida por sensualidade e sentimentos complexos. Ora Marilyn se coloca como a insegura, pedindo desculpas a amiga por ter lhe roubado o namorado, ora se coloca como uma mulher digna de subir num salto 20 e levar os homens a ver-da-dei-ra loucura.

Uma guerra perdida. Porque, como todos sabem, a loira cobiçada se afundou em remédios, vícios e psicopatias por anos. A surpresa fica por conta de Margot, a camareira, que se mostra feminina, mesmo não sendo conhecedora de sexo como sua ex-amiga – sim, as duas eram bem próximas - nem digna de estonteante beleza. A mulher traída se faz vingada quando a sua escolha fica clara: casara-se novamente, tem uma filha e já espera um novo herdeiro. Tudo que Marilyn almejava.

Enquanto a diva do cinema, falida em seu segundo casamento, sem conseguir comparecer aos estúdios de Hollywood para filmar e ainda perseguida pela CIA, sofre sozinha, Margot se refaz. Passaram-se dez anos até o encontro derradeiro das duas. Uma de frente para outra, colocando tudo em pratos limpos.

A mulher incompreendida sofre por não conseguir ser o que queria, sofre por ter escolhido amores efêmeros, sofre por não ter encontrado afeto. Sim, é possível escolher. Marilyn se separou de Joe DiMaggio, seu segundo marido, por querer transformá-la numa dona de casa. Um começo de relacionamento já conturbado, justamente por ter sido o pivô da separação de Margot, e um fim derradeiro: ficaram apenas nove meses juntos.  

Quantas vezes trocamos amores por ambições? Trocamos amores duradouros – com problemas, indefinições ou mesmo barreiras aparentemente intransponíveis – por afetos momentâneos?

Não é amor que machuca. O amor só fortalece. O que machuca é a manifestação do ego, o que para Marilyn era como que um vício.

A última peça dirigida por Marilia Pera deixa uma pergunta: que mulher você escolhe ser?

Um aviso: a resposta em reticências não é mais válida.


Serviço:
Oi, o quê? “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”
Onde? Teatro Vannucci- Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente 52 – 3º andar, Gávea)
Ah, beleza. Quando?  Quinta a sábado 21h30, Domingo 20h. Até 6 de março.
E quanto custa? R$80



Liberto, ainda que tardia


Liberto, ainda que tardia

Encontrei em mim um laço forte
Afiado
Suado
Laminado
Preparado
Apertado
Suave e emaranhado
Livre e descoberto
Risonho e esperançoso

Encontrei em mim um nó feito
Com cuidado tecido há anos
Com cheiro de pétalas
E cor avermelhada
No verão dá frutos
E no inverso se recolhe
No outono, ainda assim, escolhe
O renascer primaveril

Encontrei em mim o aperto perfeito
Que espera
E caminha calmo
Que respira
E segue firme
Que aguarda
E se resguarda




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O meu muso



     O meu muso

Aquele jeito dele de desabotoar a camiseta apenas com uma mão já me intrigou. E, confesso, o coração e o resto do corpo corresponderam imediatamente àquele simples gesto. Foi aqui e foi pra mim.

Ainda o sinto.

Parece que meu quarto ainda sente o cheiro daquele homem. Vem a mim, como que de rasteira, todas as lembranças. Vem o olhar, a forma de andar, as pernas grossas, o corpo duro. Vem no modo com que fala comigo sem se perder no meu olhar. Vem todo, vem inteiro.

E eu? Deitada como se no peito dele ainda estivesse.

Quando ele chegou eu era inteira, firme e segura. Mas, agora, eu o imploro. Imploro por mais um beijo, por mais um calor, um abraço com seu cheiro - cheiro de homem - e pela sua barba roçando meu corpo e causando um estranhamento que só gosto de viver de olhos fechados.

Fecho mais forte agora, só pra sentir ainda mais. Sentir quando ele me toca e arrepia meu corpo e quer ficar em mim como tatuagem.

Quando ele entra em mim, me retoma os sentidos como se num segundo eu perdesse a cabeça só pra me encontrar depois. E quando retomo o fôlego, lá está ele. Dentro. E em cima de mim.

Aqui ainda estamos, ofegantes, suados, enlouquecidos e mais conscientes do que nunca. Penso rápido: quero tudo e mais um pouco. Quero cada detalhe para que amanhã possa lembrar. E, quando for a hora de esquecer, fazer o meu corpo recordar.

Ao terminar, um abraço forte. O suficiente. Afinal, é o nosso abraço. A nossa energia irradiada pelo corpo inteiro. E o que antes era tesão, agora se tornou cumplicidade.

E eu? Eu pedi, com aquele olhar que só as mulheres pedem, para que ele ficasse. Ele entendeu, ele sempre entende. E ficou. E ficamos. 



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oi! Sou eu! Prazer.

 

Oi! Sou eu! Prazer.

A vida se encarrega. Foi ela que me pegou pelos braços e me trouxe até aqui.

Foi ela quem me viu por aí solitária, meio perdida e me fisgou. Foi essa aí mesmo que me disse que eu era forte, que eu impunha já meu jeito de andar as certezas dela mesma.

Numa manhã de um dia desses, ela virou para mim e disse: vai!

E eu? Atônita. Vou pra onde?

Onde me acho? Onde me encaixo?

A resposta não veio. Mas eu fui. Corpo ereto, concentrada e focada num ponto fixo logo à frente.

Ops.

Tropecei.

Merda.

Olhei pra baixo instintivamente checando meu corpo, se havia machucado, se havia me ferido, se havia sangue. Calma, guria! Tá tudo certo!!

Ergui meus olhos e lá estava ele.

A morte, pensei.

Puta que pariu.

É só ficar tudo bem, tudo caminhando como tem que caminhar, tudo dando certo que vem a porra de uma distração qualquer que te joga no chão.

Muito rápido levantei.

Ok, bora encarar a morte de frente.

Foi só eu tentar balbuciar alguma coisa que o vento forte me fez perder os sentidos. Fiquei confusa, tanto que não sentia meus pés firmes. Aquela força toda me faria volitar. Eu me abati na hora. Até tentei manter a ordem das coisas, mas não enxergava realmente mais nada.

Passou. Coração já vai voltando, batendo conforme os padrões da normalidade.

Pausa.

Ele continuava lá. Na minha frente, parado.

Voltei a tentar falar. Nesse momento veio uma fraqueza nas pernas, uma tontura, quase caio mesmo sem nada ter acontecido. Será que essa coisa está influenciando o meu inconsciente?

Em pensamento, neguei.

E ele? Ele continuou lá, no mesmo lugar.

Continuei dizendo "nãos" intermináveis dentro de mim. A negação àquilo tudo era como um eco.

Nada mudava.

Até que, enfim, a tormenta passou.

O sol apareceu! Ufa!

Abri um sorriso tímido.

Dessa vez eu esperei. Não me precipitei em saber o que estava acontecendo. Só agradeci ao alívio que senti. É bom manter os pés firmes.

E de uma forma muito calma e cordial, olhando fico nos meus olhos, ele me diz: prazer, sou eu, a paixão.


Morri!  



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Homem Bonito


Homem Bonito

Eu sou daquelas mulheres que gosta de ver um homem bonito. E pra ser bonito não precisa ser um Adonis.

Um homem bonito tem saber olhar, tocar, se deixar ser olhado e deixar ser tocado.

Um homem bonito traz flores, ainda que de mãos vazias. Beija na boca como se fosse a última.

Um homem bonito não precisa ter “tanquinho”. Aliás, em alguns casos, pode até ter barriguinha...ou barriga... rs...

Ele, pra ser bonito, tem que mostrar que lê. Que tem cultura. Que sabe um tantinho mais que você.

Tem que amar futebol, mas deixar o jogo pra lá só por causa de você.

Precisa te admirar, pra ser bonito.

E te olhar...e te querer...

E tem que te achar bela de manhã, à noite, de dia. Com roupa, sem roupa. Penteada, despenteada.

E quando você não estiver a fim, pra ser bonito, o homem tem que entender...


Ahh! Homem bonito! Cadê você?


***Escrito por Helenildes Alcantara, minha mãe. Leia outro texto dela aqui



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ele não soube o que fez


Ele não soube o que fez

Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha. E não demorou muito para a tristeza chegar.

Era assim que Berenice se sentia: triste. Não sentia falta de alguém, não estava carente, não pensava em fatos passados, muito menos tentava achar explicações possíveis. Ela só estava sem fim. Respirava fundo e parecia que o ar não acabava. A lágrima até secara, mas seu semblante era desolador. Um olhar perdido num infinito de possibilidades escuras e escusas.

Mas não foi assim que Julio a deixou. Berê, como ele mesmo a chamava, estava ensandecida. No dia fatídico ela entendera bem o real sentido do crime passional. De fato estava a ponto de cometer uma loucura. Por pouco, não recuperara a sanidade.

Quando Berenice descobriu a verdade se descontrolou por fora, mas por dentro estava certa do que fazia. Fechou os olhos e, num suspiro de coragem, foi atrás do flagrante. Assim que chegou naquela esquina, próximo onde o bonde a deixava para seguir para o trabalho, ela viu. Viu com seus próprios olhos os gracejos de Julio para com outra moça. Nada fez. Só esperou.

Primeiro o sorriso veio cúmplice. Depois veio gargalhada. E não demorou para que o beijo virasse um daqueles apaixonados.

Foi assim que a mais bela dama caiu do salto. Soltou um grito que poderia se escutar do início da rua. Julio ainda terminou o beijo, com muita calma. Nunca em tempo algum acreditaria que sua esposa estivesse testemunhando tudo.

Mas não foi assim que ele contou a família. Dissimulado, o fez com muito cuidado. Não assumiu. Aliás, nunca assumiria. Julio era o esposo perfeito, o mais bem quisto, o mais bem afortunado e em toda a história dos Campos nunca alguém haveria de ter passado uma vergonha dessas.

Quando Berenice fechou os olhos novamente procurando seu eixo, ela pensou em como os abriria novamente. E abriu. E olhou para frente. Subiu no salto novamente. Cruzou a esquina.

Primeiro veio o olhar. Depois a lágrima. E não demorou muito para o desespero chegar.
É assim que as mulheres sentem quando são traídas? Cheias de ódio que as deixa sem prumo? Sem chão? Vermelhas de raiva? Como recuperar o rubro dos lábios e partir? Cabeça erguida? Chance de conseguir voltar inteira para casa, isso sim importava.

Mas não foi assim que Matos a percebeu. Ele, distinto, não se assustou, mas, sim, sentiu uma vontade enorme de colocá-la entre seus braços.

Quando Berenice percebeu já estava sendo acolhida. E se sentiu confortável e estranhamente segura.


Primeiro veio o toque. Depois a percepção do quão belo ele era. E não demorou muito para virar vício. 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O próximo encontro

 
O próximo encontro

Uma mão lava a outra. O que tem que ser seu arranja uma maneira de chegar a você. Uma porta se fecha, mas uma janela se abre.

A vida é tão feita de certezas. Não sei por que eu perco tanto tempo pensando nela. Se já está tudo na frente, todos os sinais, todos os caminhos traçados, por que eu resolvi ser racional?

Eu tô falando sério. Eu sou tão racional, que chega ao ponto de quando eu estou chorando eu penso: por que eu tô chorando? Eu mereço esse choro? E se eu tivesse feito tudo diferente?

Queria ser como essas pessoas que choram por chorar. Que deixam tudo escorrer em meia hora de choro descontrolado e depois seguem sua vida. Vivem o luto, sabe?

Mas como assim? Como assim viver o luto, é possível? É ficar triste e se permitir ficar triste?? Eu heim. Eu não!

Tô fora!

Não me permito!

Pronto. Não me permito.

Inclusive já tô indo tomar o meu banho e ficar cheirosa pro meu próximo date. Ele é alto, gato, tem uma barba daquela eu gosto – quem me conhece, sabe – e me abraça como ninguém. Putz, me fez lembrar o passado. Meu pretérito passado tem um abraço que encaixa em mim que é uma coooiiisaaaaa!

Opa, parou!

Cabeça fria.

Bruno tem um sorriso largo e é cavalheiro, uma qualidade que merece ser destacada de tão raro que se tornou. Ele faz o que eu gosto e se esforça pra me fazer feliz.

Então, é com esse vou!


Ops, me atrasei. Deixa correr aqui. Beijo, me liga, tchau.  



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Rio num dia de chuva

 

O Rio num dia de chuva

Chovia. E quando chove no Rio de Janeiro é a previsão do caos. No Centro da cidade, então... nem se fala. Aqui as pessoas não sabem andar de guarda-chuva. E de fato é complicado. Você tem que olhar para o chão – acredite, são muitas as poças d’água – pro carro que vai passar não jogar água suja na sua roupa limpa, e, principalmente, para o guarda-chuva da pessoa ao seu lado não bater no seu. A neurose é tanta que eu chego a ficar encolhida, agarrada à minha bolsa e com os ombros curvados e as mãos cruzadas tamanha é a vontade de seguir meu caminho sem surpresas.

Atravessar a rua faz parte desse capítulo “chuva no Centro do Rio”. Eu sempre traço uma reta e uma estratégia. Assim não piso em falso, mantenho a minha calça jeans limpa e  minha boca longe de palavrões.

Pausa. São segundos esperando o sinal fechar.

Que susto!

Porra, olho pro lado e tem um cara embaixo da minha sombrinha.

“Desculpa, posso pegar uma carona aqui”?

Se falei não lembro. Mas fiz que sim com a cabeça. Ia ser bem rapidinho – duas faixas de rolamento e só. Ok, duas indo e duas vindo. Mas, tudo ligeiro. E, além do mais, era gatinho. 
Não ia me custar nada.

Naqueles segundos, parada estava e parada fiquei. Olhei pro outro lado, parecendo preocupada e com pressa. Não queria de modo algum olhar pra ele de novo.

“Eu já te vi por aqui. Você trabalha aqui perto”?

Envergonhada, acho que pronunciei um sim entre os lábios.

Atravessamos.

E nessa eu vi o olhar dele de relance. Os meus continuam tímidos.

“Obrigado. Espero te reencontrar num dia de sol”. E lá se foi ele em direção ao Largo da Carioca.

Eu, quase que acamada na Avenida Paulista fria e distante, esbocei um sorriso de lado e me perguntei “sério, eu ouvi isso”?

Não demorou nem meia hora para que eu guardasse o kit chuva e tirasse o casaco. Afinal, esse é o Rio de Janeiro.

O sol voltou!

Ora, é outono. Faz frio e calor. Muda tanto o tempo quanto o meu estado de espírito. Só sei que meu caminho de volta pra casa foi outro por alguns dias. No claro intuito de não reencontrar o tal cara despojado e desprevenido.

Aquele cara devia estar por ali só naquele dia, resolvendo coisas. Mas por que ele perguntou se eu trabalhava por ali? Não, é mentira. Ele nunca me viu. É papo de homem. Tava querendo chamar minha atenção. Eu fico só sacando caras assim. Ele espera uma alma carente cair na lábia dele e créu. Coisa de cafajeste. Claro, deve ser o pior tipo de homem. Veja só. Quanta simpatia! Com uma desconhecida? Imagina eu casada com ele sabendo que ele fala com qualquer uma na rua? Nunca que ia confiar.

As semanas se passaram, eu esqueci do infortúnio e voltei à rotina. Mesmo caminho, mesmas ruas, mesmo sinal.

“Opa”!

Meu Deus, susto de  novo! Eu ando tão distraída. Como é que pode?

“Oi. Bom te ver. E dessa vez num dia tão bonito. Tanto quanto você”.

Jesus, que cantada barata. Devolve que esse aí veio com defeito.

“sabia que ia te ver de novo. Mas, sério... achei que tivesse sido demitida, sei lá... há muito que não te vejo por aqui”.

Olha ele, gente, puxando assunto pra ver se cola.

“Então.. não quero ais te encontrar por acaso”.

Pausa.

Até que olhando, assim, melhor, esse jeito malandro trabalhador é interessante. Esse olhar oblíquo que me deixa encabulada pode render mais. Tô bem precisando de uma aventura mesmo. Vidinha morna de amor romântico não mantém a gente em pé, não é? Vamos dar uma chance.

“A gente podia combinar um cineminha”.

Ah não. Brochei. Tem coisa mais casal que filme de sessão da tarde? E eu aqui crente que ia viver um começo de paixão avassaladora, um sexo descompromissado. Ah vá.

“Legal! Te pego na terça então”.


Pano preto.