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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ela mudou! E foi pra melhor?

Muito se discute sobre a exposição feminina quando o assunto é comercial de cerveja. Já figuraram gostosas, peitudas, sambistas, bundudas, boas de copo e de perna e vozes com aquele tom masculino – típico de quem toma suplementos para malhar. Parecem realmente terem saído de academias ou de revistas de marombeiros.

Claro, em nada se parece com as belas, recatadas e do bar que batem ponto nos botecos da cidade. Mulher boa é aquela que escolhe ser o que quer e assume isso! Se encostar no balcão e pedir uma gelada com jeitinho ganha muitas madrugadas de azaração, papos políticos e confidências que só um bar permite.

Algumas geladas acertaram de bate e pronto no design e concepção dos rótulos. Olha só:
   



Já a Itaipava foi uma que mudou de cara recentemente. E tem explicação: quer ganhar mais espaço no mercado. Na última edição da pesquisa Top of Mind, anunciada em julho de 2015, a marca conquistou o terceiro lugar entre as cervejas mais lembradas pelos consumidores.


Enquanto aqui no Rio as artesanais ganham cada vez mais espaço, a Itaipava avança no Nordeste. Por lá, a marca chegou em 2012 e é a mais vendida em diversos estados. A meta é que até o fim deste ano, todo o Brasil conheça a nova embalagem. 






terça-feira, 21 de junho de 2016

O amor cega

 
O amor cega

O amor cega.

Já o meu, na contramão, tece e mantém os olhos bem abertos. Eu o vi e reconheci. Sabia que ali morava a troca, as realizações, os aprendizados e as carências. Ali estava meu melhor companheiro.

Olha, mas olha mesmo! Aqui, já tão perto, está minha paixão.

Mais que carinho, afinidade, gostos similares... meus olhos não viram um namorado, nem um melhor amigo. Embora não seja fácil achar um bom parceiro de viagem, mas esse seria mais. Guardávamos já muitas historias em terras distantes e emoções tão fortes quanto por aqui.

E o sentimento eu acertei logo de cara. Ora, diriam os tolos, como sabe?

Eu sei! E isso basta!

Mentia.

Eu sei por associação. Sei porque já senti, porque já vivi , porque já amei.

Ao contrario da primeira vez, meu amor foi à primeira vista. Eu, boba, desacreditava desse jeito romântico de conduzir e explicar as coisas. Enganei a mim mesma.

Meus olhos viram! E gostaram rapidamente do que estava à frente. E, digo mais, gostaram tanto que nunca mais se atreveram a tirar de você.


No fim, eu aprendi que o que meus olhos veem, o meu corpo sente inteiro sente instintiva e imediatamente. 



terça-feira, 14 de junho de 2016

Entre coordenadas e liberdades



Entre coordenadas e liberdades

Já estava quase indo embora”... sim, essas foram as primeiras palavras – austeras – que pronunciei para o Felipe. Ele tinha demorado muito – ok, dez minutinhos além do combinado – e eu já estava de saco cheio de esperar. Ele deve ter me achado ou maluca ou cheia de atitude, já que nos papos pela internet eu não tinha mostrado as garras.
Não me lembro do que ele disse, mas de qualquer forma, contornou bem a situação. 

Fomos andando sem muitas palavras e nos sentamos do lado de fora de um bar que outrora foi refúgio meu e de outros pares.

Hora de ressignificar!

Conversamos sobre a vida, sobre o filho dele, sobre as viagens, nas furadas que nos metemos em viagens, o que eu teria feito se fosse ele e o que ele fez sendo ele mesmo. No final, acertamos os signos e ascendentes e nos beijamos. Felipe só faltou ser condescendente com sua lua em leão, o que de longe não é o meu forte.

Marcamos o segundo encontro. Eu não estava animada, muito menos curiosa. O que me encorajava no início não fez nem cosquinha dessa vez. Afinal, o inesperado, a expectativa e o desconhecido é o que me moviam na noite em que nos conhecemos. Parece que tudo já perdera a graça.

Mas, dei a oportunidade.

Felipe passou às oito horas para me resgatar de um aniversário de uma amiga. O clima estava bom e, por um momento, pensei em dar o bolo no gatinho. Mas, tamanha era a vontade dele em me ver... que resolvi respeitar o moço. Me aguardavam um beijo e um abraço daqueles difíceis de desgarrar. 

Gostoso. 

E assustador.

Sufocante.

E ameaçador.

Deu medo do futuro e um filme passou pela minha cabeça. O dominador leonino intimidaria toda e qualquer liberdade da mulher taurina.

Criei meiguice.

E criei dissimulações.

Vieram fraudes.

E choveram pretextos.

Ao fim, criaram-se feras.


E desenvolvi asas.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desapega!


Desapega!

Desapega de mim. Para de me procurar em horários impróprios. Sabia que eu durmo? Que eu trabalho? Que eu tenho meus casos e não quero ser incomodada na minha intimidade?

Passou. Desapega. Não quero encontrar você na saída do curso. Não quero ver tua cara. Não quero surpresa. Não quero preocupação quando sua sogra não tá bem.

A minha vida tá ótima. Sem você. Não entendeu que a minha vida é sem a sua? Já foi. Já foi a mesma. Já foi uma só.

Não é mais. Eu e você não somos mais. Me deixa livre. Me deixa sofrer sozinha. Você perto não ajuda. Me deixa respirar. Me deixa falar com quem eu quero, usar o vestido que eu escolhi, voltar pra casa a hora que me der na telha.

Desapega! E larga meu braço, eu tô pedindo.

Não me machuca.

Me esquece, me larga e segue tua vida.

Apaga meu número do seu celular, esquece a hora que acordo e do meu cansaço no fim do dia. Não pergunta como estou.

Não quero você perto. Não quero saber se engordou, se emagreceu, se planeja viajar, se comeu direito, se comprou a blusa que queria nem qual bar você anda frequentando.

Desapega! Se cruzar comigo, atravessa a rua. Finge que não me conhece.

Já falei para me largar.

Larga, tá me machucando.

Vai embora! E leva contigo tudo que me fez apaixonar. Vai com esse sorriso de canto de boca, com suas ideias revolucionárias, com seu feminismo arrebatador. Não quero seu olho no meu. Nem sua mão na minha.

Vai. E não vira.

Vai!

Já falei pra ir?


Já foi?



segunda-feira, 21 de março de 2016

Quanto tempo dura uma mentira?


Quanto tempo dura uma mentira?


O tempo é capaz de aplacar tudo? Não? Então, o que devemos fazer quando vemos que já passou tempo demais e temos que resolver as coisas?

Mas, pera. Quem disse que é tempo demais? Em que fração de segundo você pensou que poderia julgar o tempo? O que é muito pra você pode ser pouco pra mim.

Dois anos! Dois anos que a mãe dele morreu e você ainda não contou a verdade.

É difícil... é difícil falar disso. É difícil falar com ele. É difícil falar disso com ele.


- - - A retórica de um pai perdido tentando consertar o tempo que passou escondendo a real causa da morte da mãe de Conrad é angustiante. O rapaz é um adolescente problemático, fechado ao diálogo, tipicamente perdido, apaixonadamente cego, enlouquecidamente inocente e extremamente triste. Um sentimento que transborda o olhar. Vê-se no jeito de andar, nas costas curvadas e nos gestos tímidos. É como se Conrad nunca soubesse onde colocar as mãos. Ele nunca está à vontade. Com exceção de quando dança com a música alta, trancado em seu quarto-refúgio. Seu momento – e sempre a sós.


“O tempo suspenso (...) Segundos que não eram já segundos” – o que passou pela cabeça dela quando percebeu que o acidente já era inevitável?

- - - Conrad cria um repertório próprio para os últimos momentos de vida da mãe. A casa, o corredor, os filhos, os cheiros, as lembranças, os erros...? O que Isabelle teria pensado antes de bater seu carro freneticamente de frente com um caminhão em alta velocidade? O mundo parara. O tempo parara?



Que tipo de amor minha mãe me deixou?

- - - Não sei. Não sei mais sentir. Sinto falta todo o tempo e qualquer literatura me remete a ela. Minha mãe sorria, abraçava – só que não espalhava alegria pela casa. Mas nada que a fizesse uma mulher depressiva. Era determinada. E bem famosa, tanto que a Wikipedia faz menção a ela, sabia? Minha mãe era uma fotógrafa incrivelmente sensível. Mas, antes de tudo, minha mãe. Para meu pai, uma egoísta incurável. Que excursionava em guerras para obter os melhores cliques. Apesar disso, era também um admirador de sua obra.         

Talvez a maior verdade proferida no filme fosse justamente do amante de Isabelle, veja que paradoxal: “Você sempre tem escolhas. Mas não pode planejar o que vem depois dessa escolha”.

Fica o fim: tudo, na verdade ou na mentira, sempre se ajeita.



*** Sobre o filme ‘Mais Forte que Bombas’, que estreia no Brasil em 7 de abril. O longa tem direção de Joachim Trier.




segunda-feira, 7 de março de 2016

Fim (?) de festa

 

Fim (?) de festa

- Oi.. oi?

Ele virou a cabeça pro lado.

- Você tá há muito tempo aqui?

- Ah.. um pouquinho....

- E tá indo pra onde?

- Tijuca.

- Mas passa ônibus aqui pra Tijuca?

- Já tô começando a achar que não.

- ;-) ;-) Vai pra Lapa e de lá pega um pra Tijuca. É mais garantido. ;-) ;-)

- É... ;/ ;/ é, uma boa ideia. ;-)

- Olha... não é ele?

- É! Vamos pegar esse?!

- Não acredito!! Passou direto!

Filho da puta, xinguei baixinho.

- Relaxa, o pior já passou.

- ?

- É... a chuva de mais cedo.

- Ah, sim sem dúvida. Ah chuva... mas eu tava resguardada do alagamento.

-?

- Bar, amigos... perfeito pra esperar o temporal parar.

- Agora sim! Esse serve pra gente, né?

Serve, claro que serve pra gen-te, pensei.

Ele me cedeu o lugar. Passei primeiro e logo sentei. No corredor, porque assim não corríamos o risco de sentarmos juntos. Mentira! Ah... mentira deslavada! ;-)) A verdade é que 
todos os bancos estavam muito molhados.

Mas, já dizia minha vó, quem quer mostra que quer. Não é mesmo?

Então, ele se sentou bem do meu lado. De um jeito que o vão do corredor ficava entre a gente, mas não deixava que os olhares e o papo continuassem. 

- Chegamos! Vamos descer aqui, apontei.

- Então... não corre.

- ;-)

- Vamos tomar um chopp.

- ;-)

- Vem!

Me puxou pela mão decidido. E o melhor, não me senti comandada. Na real, odeio me sentir assim: como se tivesse que ir onde mandam. Mas obedeci, delicada e fielmente.

- Acho que todos os lugares estão fechados. ;( Melhor ir pra casa.

- Você quer?

- ?

- Ir pra casa?

- Tá bom,  vamos procurar um lugar pra saideira. Mas só uma! Só uma cerveja, ok?

- ;-)

Achamos! Mentira também. Ele achou. Ficamos em pé bebendo uma Antartica no litrão. Bem num clima fim de festa. Longe do encontro perfeito que geralmente é quase que banhado em Veuve Clicquot.  

Papo vai, papo vem.

- ;)

- :)

28 anos, solteiro, contador, viajante, trilheiro, roots, curte reggae e jazz, adora crianças, mas não quer uma nem tão cedo, está juntando dinheiro pra ir pra Itacaré.

- Está começando a chover.

- É...

- E fora que está na minha hora... aliás já até passou.

- Tá bem, te deixo lá.

- :/

Fomos andando ainda conversando sobre viagens e filhos. São esses os assuntos que, nos meus 30 anos, mais me interessam.

- Eu moro aqui.

Ensaiei pegar a chave para abrir o portão. Mas veio a mão tímida puxando o meu corpo para mais próximo dele. Não titubeei.

Depois do longo e já aguardado beijo, fiquei tímida. E, quase que olhando pra baixo, disse:

- Vou subir.

- Tá bem. Me deixa seu número, pode?

Eu pensei em dar o telefone errado, assim como fazia com os carinhas da noitada no auge dos meus 15 anos. ;/ ;) ;))

- Desculpa, mas esqueci o seu nome...

 - ?

- ;/

- Tiago...

- Tiago do quê?

- Tiago Rodrigues.

- Ah, beleza. É só pra diferenciar aqui no whatsapp.... tem vários Tiagos.





terça-feira, 1 de março de 2016

‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn


‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn 

E depois do amor, fazer o quê? É matar ou morrer! Ou você corre atrás de explicações, enredos que não deram certo, lembranças inacabáveis e sonhos não percebidos ou você se acaba. Acaba a luz, o ar, a motivação e o viver o amor de novo.

Na peça “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”, em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Vannucci - Shopping da Gávea, Daniele Winits dá vida à sex symbol e Maria Eduarda de Carvalho vive sua antagonista, Margot Taylor. As duas rivais recordam os amores vividos – e bem vividos – e travam uma batalha regida por sensualidade e sentimentos complexos. Ora Marilyn se coloca como a insegura, pedindo desculpas a amiga por ter lhe roubado o namorado, ora se coloca como uma mulher digna de subir num salto 20 e levar os homens a ver-da-dei-ra loucura.

Uma guerra perdida. Porque, como todos sabem, a loira cobiçada se afundou em remédios, vícios e psicopatias por anos. A surpresa fica por conta de Margot, a camareira, que se mostra feminina, mesmo não sendo conhecedora de sexo como sua ex-amiga – sim, as duas eram bem próximas - nem digna de estonteante beleza. A mulher traída se faz vingada quando a sua escolha fica clara: casara-se novamente, tem uma filha e já espera um novo herdeiro. Tudo que Marilyn almejava.

Enquanto a diva do cinema, falida em seu segundo casamento, sem conseguir comparecer aos estúdios de Hollywood para filmar e ainda perseguida pela CIA, sofre sozinha, Margot se refaz. Passaram-se dez anos até o encontro derradeiro das duas. Uma de frente para outra, colocando tudo em pratos limpos.

A mulher incompreendida sofre por não conseguir ser o que queria, sofre por ter escolhido amores efêmeros, sofre por não ter encontrado afeto. Sim, é possível escolher. Marilyn se separou de Joe DiMaggio, seu segundo marido, por querer transformá-la numa dona de casa. Um começo de relacionamento já conturbado, justamente por ter sido o pivô da separação de Margot, e um fim derradeiro: ficaram apenas nove meses juntos.  

Quantas vezes trocamos amores por ambições? Trocamos amores duradouros – com problemas, indefinições ou mesmo barreiras aparentemente intransponíveis – por afetos momentâneos?

Não é amor que machuca. O amor só fortalece. O que machuca é a manifestação do ego, o que para Marilyn era como que um vício.

A última peça dirigida por Marilia Pera deixa uma pergunta: que mulher você escolhe ser?

Um aviso: a resposta em reticências não é mais válida.


Serviço:
Oi, o quê? “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”
Onde? Teatro Vannucci- Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente 52 – 3º andar, Gávea)
Ah, beleza. Quando?  Quinta a sábado 21h30, Domingo 20h. Até 6 de março.
E quanto custa? R$80



Liberto, ainda que tardia


Liberto, ainda que tardia

Encontrei em mim um laço forte
Afiado
Suado
Laminado
Preparado
Apertado
Suave e emaranhado
Livre e descoberto
Risonho e esperançoso

Encontrei em mim um nó feito
Com cuidado tecido há anos
Com cheiro de pétalas
E cor avermelhada
No verão dá frutos
E no inverso se recolhe
No outono, ainda assim, escolhe
O renascer primaveril

Encontrei em mim o aperto perfeito
Que espera
E caminha calmo
Que respira
E segue firme
Que aguarda
E se resguarda




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oi! Sou eu! Prazer.

 

Oi! Sou eu! Prazer.

A vida se encarrega. Foi ela que me pegou pelos braços e me trouxe até aqui.

Foi ela quem me viu por aí solitária, meio perdida e me fisgou. Foi essa aí mesmo que me disse que eu era forte, que eu impunha já meu jeito de andar as certezas dela mesma.

Numa manhã de um dia desses, ela virou para mim e disse: vai!

E eu? Atônita. Vou pra onde?

Onde me acho? Onde me encaixo?

A resposta não veio. Mas eu fui. Corpo ereto, concentrada e focada num ponto fixo logo à frente.

Ops.

Tropecei.

Merda.

Olhei pra baixo instintivamente checando meu corpo, se havia machucado, se havia me ferido, se havia sangue. Calma, guria! Tá tudo certo!!

Ergui meus olhos e lá estava ele.

A morte, pensei.

Puta que pariu.

É só ficar tudo bem, tudo caminhando como tem que caminhar, tudo dando certo que vem a porra de uma distração qualquer que te joga no chão.

Muito rápido levantei.

Ok, bora encarar a morte de frente.

Foi só eu tentar balbuciar alguma coisa que o vento forte me fez perder os sentidos. Fiquei confusa, tanto que não sentia meus pés firmes. Aquela força toda me faria volitar. Eu me abati na hora. Até tentei manter a ordem das coisas, mas não enxergava realmente mais nada.

Passou. Coração já vai voltando, batendo conforme os padrões da normalidade.

Pausa.

Ele continuava lá. Na minha frente, parado.

Voltei a tentar falar. Nesse momento veio uma fraqueza nas pernas, uma tontura, quase caio mesmo sem nada ter acontecido. Será que essa coisa está influenciando o meu inconsciente?

Em pensamento, neguei.

E ele? Ele continuou lá, no mesmo lugar.

Continuei dizendo "nãos" intermináveis dentro de mim. A negação àquilo tudo era como um eco.

Nada mudava.

Até que, enfim, a tormenta passou.

O sol apareceu! Ufa!

Abri um sorriso tímido.

Dessa vez eu esperei. Não me precipitei em saber o que estava acontecendo. Só agradeci ao alívio que senti. É bom manter os pés firmes.

E de uma forma muito calma e cordial, olhando fico nos meus olhos, ele me diz: prazer, sou eu, a paixão.


Morri!  



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ele não soube o que fez


Ele não soube o que fez

Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha. E não demorou muito para a tristeza chegar.

Era assim que Berenice se sentia: triste. Não sentia falta de alguém, não estava carente, não pensava em fatos passados, muito menos tentava achar explicações possíveis. Ela só estava sem fim. Respirava fundo e parecia que o ar não acabava. A lágrima até secara, mas seu semblante era desolador. Um olhar perdido num infinito de possibilidades escuras e escusas.

Mas não foi assim que Julio a deixou. Berê, como ele mesmo a chamava, estava ensandecida. No dia fatídico ela entendera bem o real sentido do crime passional. De fato estava a ponto de cometer uma loucura. Por pouco, não recuperara a sanidade.

Quando Berenice descobriu a verdade se descontrolou por fora, mas por dentro estava certa do que fazia. Fechou os olhos e, num suspiro de coragem, foi atrás do flagrante. Assim que chegou naquela esquina, próximo onde o bonde a deixava para seguir para o trabalho, ela viu. Viu com seus próprios olhos os gracejos de Julio para com outra moça. Nada fez. Só esperou.

Primeiro o sorriso veio cúmplice. Depois veio gargalhada. E não demorou para que o beijo virasse um daqueles apaixonados.

Foi assim que a mais bela dama caiu do salto. Soltou um grito que poderia se escutar do início da rua. Julio ainda terminou o beijo, com muita calma. Nunca em tempo algum acreditaria que sua esposa estivesse testemunhando tudo.

Mas não foi assim que ele contou a família. Dissimulado, o fez com muito cuidado. Não assumiu. Aliás, nunca assumiria. Julio era o esposo perfeito, o mais bem quisto, o mais bem afortunado e em toda a história dos Campos nunca alguém haveria de ter passado uma vergonha dessas.

Quando Berenice fechou os olhos novamente procurando seu eixo, ela pensou em como os abriria novamente. E abriu. E olhou para frente. Subiu no salto novamente. Cruzou a esquina.

Primeiro veio o olhar. Depois a lágrima. E não demorou muito para o desespero chegar.
É assim que as mulheres sentem quando são traídas? Cheias de ódio que as deixa sem prumo? Sem chão? Vermelhas de raiva? Como recuperar o rubro dos lábios e partir? Cabeça erguida? Chance de conseguir voltar inteira para casa, isso sim importava.

Mas não foi assim que Matos a percebeu. Ele, distinto, não se assustou, mas, sim, sentiu uma vontade enorme de colocá-la entre seus braços.

Quando Berenice percebeu já estava sendo acolhida. E se sentiu confortável e estranhamente segura.


Primeiro veio o toque. Depois a percepção do quão belo ele era. E não demorou muito para virar vício. 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O próximo encontro

 
O próximo encontro

Uma mão lava a outra. O que tem que ser seu arranja uma maneira de chegar a você. Uma porta se fecha, mas uma janela se abre.

A vida é tão feita de certezas. Não sei por que eu perco tanto tempo pensando nela. Se já está tudo na frente, todos os sinais, todos os caminhos traçados, por que eu resolvi ser racional?

Eu tô falando sério. Eu sou tão racional, que chega ao ponto de quando eu estou chorando eu penso: por que eu tô chorando? Eu mereço esse choro? E se eu tivesse feito tudo diferente?

Queria ser como essas pessoas que choram por chorar. Que deixam tudo escorrer em meia hora de choro descontrolado e depois seguem sua vida. Vivem o luto, sabe?

Mas como assim? Como assim viver o luto, é possível? É ficar triste e se permitir ficar triste?? Eu heim. Eu não!

Tô fora!

Não me permito!

Pronto. Não me permito.

Inclusive já tô indo tomar o meu banho e ficar cheirosa pro meu próximo date. Ele é alto, gato, tem uma barba daquela eu gosto – quem me conhece, sabe – e me abraça como ninguém. Putz, me fez lembrar o passado. Meu pretérito passado tem um abraço que encaixa em mim que é uma coooiiisaaaaa!

Opa, parou!

Cabeça fria.

Bruno tem um sorriso largo e é cavalheiro, uma qualidade que merece ser destacada de tão raro que se tornou. Ele faz o que eu gosto e se esforça pra me fazer feliz.

Então, é com esse vou!


Ops, me atrasei. Deixa correr aqui. Beijo, me liga, tchau.  



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Samuel, o indeciso?


Samuel, o indeciso?

Depois de alguns meses sem ir à academia, resolvi voltar. Na verdade, fui obrigada a retomar a rotina de exercícios físicos. Tive que dar um tempo porque o joelho direito não se adaptou muito bem a pegar tanto peso. Era agachamento daqui, extensora dali... tadinho... “Inflexibilidade”, minha mãe diria recorrendo a medicina holística misturada ao novo livro de meditação que ela está lendo. Owwwnnnn, digo eu.

Foi só eu chegar e ver Samuel de longe. Estava trocando uma ideia com um amigo enquanto tomava um suco giga – sério, devia ter um litro de qualquer coisa batida com ovo naquele copo. De cara eu pensei: “tem coisa que não muda nunca”.

É, tem mesmo. Continuo tímida. Nesse ponto, nada mudou. Abaixei a cabeça e fingi que não o tinha visto. Passei direto e fui encher minha garrafinha de água para começar a sessão tortura.

Até que: ele se materializa do meu lado. “Oi, gata”, falou de canto de boca. Gelei. E olhei pra cima. Claro, ele bem mais alto que eu. “Oi”, respondi e imaginei que meu rosto estava vermelho de vergonha. “Tá tão sumida... você tá bem?”. Achei até fofo e em poucas palavras expliquei o que tinha acontecido. Rapidinho já estava eu em pé na esteira tentando ligar o equipamento. Eu tinha esquecido como se mexia naquela máquina com múltiplos botões. “Ainda bem que você tá aqui... valeu por ajudar”, retribuí a fofura dele.

Nem tive tempo de abrir o livro de física quântica que tinha levado para passar os trinta minutos de caminhada leve que tinha como meta. Ficamos conversando amenidades e rindo com as histórias de outras pessoas que ele conhecia que tinha problemas nas articulações, assim como eu. Ele mesmo já teve um problema sério no ombro quando criança. Me deu uma aula de anatomia, juro. Depois de alguns minutos, meu rosto já corava de novo... mas, dessa vez, pelo esforço que fazia.

Samuel resolveu encarar a esteira do lado e se aventurou a andar comigo. A conversa continuou e eu me surpreendi. Sinceramente, não acreditava em mais de 30 minutos de troca de ideias interessante. Preconceito é uma merda mesmo. Ainda bem que dei a chance. 

Perderia uma boa companhia facilmente por achar aquele gato e rato de academia uma cabeça de minhoca.

Voltando, foram exatos 25 minutos caminhando juntos – e na mesma velocidade, acho que por gentileza dele. Nos últimos cinco, bem no finalzinho, ele acelerou para a corrida que o deixaria esbaforido no fim da noite. Eu saí dali, pedi um suco de laranja com cenoura e inconscientemente o esperei.

Poderia ter ido embora daquele lugar que tanto odeio, mas não fui. Quando ele finalizou a série de exercícios, veio a mim e malandramente falou: “e aí, gata, vamos? Vamos juntos caminhando pra casa? Onde você mora?”.

Eu nem respondi. Ou se respondi, não faço ideia. Quando vi já estávamos fora da “casa de tortura” continuando o papo tranquilo. Não lembro sobre o que conversávamos. Na verdade, isso é o que menos importa. O que vale aqui foi a atitude dele e a minha em conseguir me envolver e manter a atenção no que ele falava.

Quando cheguei na porta de casa, só disse “chegamos”. E ele? Abriu um sorrisão. Agarrou minha nuca, trouxe minha boca pra perto da dele, deu um selinho bem apertado e mandou: “então, até amanhã! Amanhã te vejo de novo, né? Academia agora é toda dia e todo dia e todo dia”.

Fiz que sim com a cabeça, ainda meio zonza e segui meu caminho. Quando entrei em casa comecei a me dar conta do que aconteceu. “Putz, não acredito que não nos beijamos! Que quê acontece com esses caras de hoje em dia? Eu heim...”

Interfone tocou. Porteiro me mandando descer porque Samuel estava lá embaixo.
Para tudo!

“Não, manda subir”. Meu joelho dói e eu tô precisando um pouco de intimidade, né? Agora eu pego ele, pensei.

Samuel saiu do elevador procurando o número do apartamento. Eu só observei e esperei ele me encontrar com o olhar. Quando achou, eu dei um sorriso. E ele retribuiu. Eu não me mexi. O negro alto veio perto, pegou minha nunca do mesmo jeito que antes e me deu um beijo cinematográfico.

“Agora sim”, recuperado o fôlego, disse baixinho aos pés do ouvido dele.