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quarta-feira, 20 de julho de 2016

‘Um Dia Perfeito’ é aquele com Benicio del Toro à frente

 
Nem tudo o que parece é verdade. Aviso logo: alerta spoiler!

Mas, uma coisa é certa, assista! Porque a fotografia é bárbara; nada sai do lugar. Nenhuma luz nem ângulo foram escolhidos à toa. Tudo faz sentido e uma das coisas mais belas do filme é quando não há diálogo, nas cenas em que o grupo humanitário percorre caminhos ermos durante a guerra. Acompanha uma trilha sonora primorosa que eleva o rock à batida angustiante e cadenciada e, sim, é impossível, mesmo nos momentos tensos, não perceber sua batida.

O longa, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2015, é dirigido por Fernando León de Aranoa e estreia na quinta-feira, dia 21 de julho.

Vamos aos fatos:

1 – O título é uma bela de uma ironia. Pense em situações que dão raiva justamente porque só dão errado. Pois é, é a guerra. E durante uma hora e meia você é lembrado disso constantemente.

2- O personagem de Tim Robbins, o veterano B, é um brincalhão. A vida dele é salvar pessoas e dar a elas um pouco de dignidade em épocas de conflitos. Lindo. Até que você percebe que atrás dessa solidariedade se encontra um cara completamente sozinho que esconde uma tristeza sem fim.

3 – Ele implica tanto com a novata Sophie, interpretada por Mélanie Thierry, que a todo momento eu imaginava Mambrú, o empoderado Benicio del Toro, vindo salvá-la. E, claro, formarem um belo casal. Balela. Ele se engraça com outra.

4 – Ou tenta. Não, melhor. Foge. Porque se a coisa fosse boa mesmo ele teria se rendido – novamente – aos encantos de Katya, vivida por Olga Kurylenko. Os dois tiveram um caso no passado e a tensão sexual fica no ar quase em todas as cenas que os dois estão juntos.

5 – Mas não rola nada. Pois é, esse não é um american movie. É muito melhor, queridos!! É um espanhol digno da safra de 2015.

6 – Nikola (Eldar Residovic) é um menino mimado que quer porque quer uma bola. Mas, poxa, o momento é de guerra, nos Balcãs de 1995 ainda por cima... tenhamos pena. Não só nós, Benicio del Toro também teve.

7 – Tanto que a tônica e todas as metáforas do filme tem como base a história do garoto. Brincadeiras à parte, é delicado e bonito sem ser piegas.

8 – Lá pelas tantas se consegue uma bola para a criança. Já falei que tem minas em todos os lugares e esse é um perigo iminente? Pois é. É daí para pior. Afinal, é a guerra. E a bola pula e a bola quica e a pula foge e a bola volta. Até que... não, nenhuma mina é detonada.

9 – Enquanto tudo isso acontece – tudo porque tem mais, muito mais, não contei nem a metade - o enredo principal se desenrola: o grupo está em busca de uma corda para tirar o defunto que foi jogado num poço e contaminou a água usada pelos moradores do vilarejo. Pois é, é a guerra.

10 – And the last, but not the least: lembra que falei da trilha sonora? Então, lá vai uma palinha. Procure no You Tube por Lou Reed e The Velvet Underground - There Is No Time e Venus in Furs, The Ramones - Pinhead, Gogol Bordello - East Infection  e Marilyn Manson - Sweet Dreams (Are Made of This), além de Where Have All the Flowers Gone na voz de Marlene Dietrich, que deixei aqui prontinho para você dar play.




***Todas as fotos são de divulgação da Esfera Filmes.




quarta-feira, 6 de julho de 2016

Dia do beijo e agradecimento a tão querida internet!


Hoje é o Dia do Beijo! Sim, a beijoca é comemorada aqui e no resto do mundo. Claro que a internet faz a minha - a sua e a deles também - vida mais feliz, selecionei algumas das piadas que estão sendo compartilhadas no Twitter.  

Como uma imagem vale mais que mil palavras, vamos a elas:











segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desapega!


Desapega!

Desapega de mim. Para de me procurar em horários impróprios. Sabia que eu durmo? Que eu trabalho? Que eu tenho meus casos e não quero ser incomodada na minha intimidade?

Passou. Desapega. Não quero encontrar você na saída do curso. Não quero ver tua cara. Não quero surpresa. Não quero preocupação quando sua sogra não tá bem.

A minha vida tá ótima. Sem você. Não entendeu que a minha vida é sem a sua? Já foi. Já foi a mesma. Já foi uma só.

Não é mais. Eu e você não somos mais. Me deixa livre. Me deixa sofrer sozinha. Você perto não ajuda. Me deixa respirar. Me deixa falar com quem eu quero, usar o vestido que eu escolhi, voltar pra casa a hora que me der na telha.

Desapega! E larga meu braço, eu tô pedindo.

Não me machuca.

Me esquece, me larga e segue tua vida.

Apaga meu número do seu celular, esquece a hora que acordo e do meu cansaço no fim do dia. Não pergunta como estou.

Não quero você perto. Não quero saber se engordou, se emagreceu, se planeja viajar, se comeu direito, se comprou a blusa que queria nem qual bar você anda frequentando.

Desapega! Se cruzar comigo, atravessa a rua. Finge que não me conhece.

Já falei para me largar.

Larga, tá me machucando.

Vai embora! E leva contigo tudo que me fez apaixonar. Vai com esse sorriso de canto de boca, com suas ideias revolucionárias, com seu feminismo arrebatador. Não quero seu olho no meu. Nem sua mão na minha.

Vai. E não vira.

Vai!

Já falei pra ir?


Já foi?



segunda-feira, 7 de março de 2016

Fim (?) de festa

 

Fim (?) de festa

- Oi.. oi?

Ele virou a cabeça pro lado.

- Você tá há muito tempo aqui?

- Ah.. um pouquinho....

- E tá indo pra onde?

- Tijuca.

- Mas passa ônibus aqui pra Tijuca?

- Já tô começando a achar que não.

- ;-) ;-) Vai pra Lapa e de lá pega um pra Tijuca. É mais garantido. ;-) ;-)

- É... ;/ ;/ é, uma boa ideia. ;-)

- Olha... não é ele?

- É! Vamos pegar esse?!

- Não acredito!! Passou direto!

Filho da puta, xinguei baixinho.

- Relaxa, o pior já passou.

- ?

- É... a chuva de mais cedo.

- Ah, sim sem dúvida. Ah chuva... mas eu tava resguardada do alagamento.

-?

- Bar, amigos... perfeito pra esperar o temporal parar.

- Agora sim! Esse serve pra gente, né?

Serve, claro que serve pra gen-te, pensei.

Ele me cedeu o lugar. Passei primeiro e logo sentei. No corredor, porque assim não corríamos o risco de sentarmos juntos. Mentira! Ah... mentira deslavada! ;-)) A verdade é que 
todos os bancos estavam muito molhados.

Mas, já dizia minha vó, quem quer mostra que quer. Não é mesmo?

Então, ele se sentou bem do meu lado. De um jeito que o vão do corredor ficava entre a gente, mas não deixava que os olhares e o papo continuassem. 

- Chegamos! Vamos descer aqui, apontei.

- Então... não corre.

- ;-)

- Vamos tomar um chopp.

- ;-)

- Vem!

Me puxou pela mão decidido. E o melhor, não me senti comandada. Na real, odeio me sentir assim: como se tivesse que ir onde mandam. Mas obedeci, delicada e fielmente.

- Acho que todos os lugares estão fechados. ;( Melhor ir pra casa.

- Você quer?

- ?

- Ir pra casa?

- Tá bom,  vamos procurar um lugar pra saideira. Mas só uma! Só uma cerveja, ok?

- ;-)

Achamos! Mentira também. Ele achou. Ficamos em pé bebendo uma Antartica no litrão. Bem num clima fim de festa. Longe do encontro perfeito que geralmente é quase que banhado em Veuve Clicquot.  

Papo vai, papo vem.

- ;)

- :)

28 anos, solteiro, contador, viajante, trilheiro, roots, curte reggae e jazz, adora crianças, mas não quer uma nem tão cedo, está juntando dinheiro pra ir pra Itacaré.

- Está começando a chover.

- É...

- E fora que está na minha hora... aliás já até passou.

- Tá bem, te deixo lá.

- :/

Fomos andando ainda conversando sobre viagens e filhos. São esses os assuntos que, nos meus 30 anos, mais me interessam.

- Eu moro aqui.

Ensaiei pegar a chave para abrir o portão. Mas veio a mão tímida puxando o meu corpo para mais próximo dele. Não titubeei.

Depois do longo e já aguardado beijo, fiquei tímida. E, quase que olhando pra baixo, disse:

- Vou subir.

- Tá bem. Me deixa seu número, pode?

Eu pensei em dar o telefone errado, assim como fazia com os carinhas da noitada no auge dos meus 15 anos. ;/ ;) ;))

- Desculpa, mas esqueci o seu nome...

 - ?

- ;/

- Tiago...

- Tiago do quê?

- Tiago Rodrigues.

- Ah, beleza. É só pra diferenciar aqui no whatsapp.... tem vários Tiagos.





terça-feira, 1 de março de 2016

‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn


‘Depois do Amor’, uma história da incompreendida Marilyn 

E depois do amor, fazer o quê? É matar ou morrer! Ou você corre atrás de explicações, enredos que não deram certo, lembranças inacabáveis e sonhos não percebidos ou você se acaba. Acaba a luz, o ar, a motivação e o viver o amor de novo.

Na peça “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”, em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Vannucci - Shopping da Gávea, Daniele Winits dá vida à sex symbol e Maria Eduarda de Carvalho vive sua antagonista, Margot Taylor. As duas rivais recordam os amores vividos – e bem vividos – e travam uma batalha regida por sensualidade e sentimentos complexos. Ora Marilyn se coloca como a insegura, pedindo desculpas a amiga por ter lhe roubado o namorado, ora se coloca como uma mulher digna de subir num salto 20 e levar os homens a ver-da-dei-ra loucura.

Uma guerra perdida. Porque, como todos sabem, a loira cobiçada se afundou em remédios, vícios e psicopatias por anos. A surpresa fica por conta de Margot, a camareira, que se mostra feminina, mesmo não sendo conhecedora de sexo como sua ex-amiga – sim, as duas eram bem próximas - nem digna de estonteante beleza. A mulher traída se faz vingada quando a sua escolha fica clara: casara-se novamente, tem uma filha e já espera um novo herdeiro. Tudo que Marilyn almejava.

Enquanto a diva do cinema, falida em seu segundo casamento, sem conseguir comparecer aos estúdios de Hollywood para filmar e ainda perseguida pela CIA, sofre sozinha, Margot se refaz. Passaram-se dez anos até o encontro derradeiro das duas. Uma de frente para outra, colocando tudo em pratos limpos.

A mulher incompreendida sofre por não conseguir ser o que queria, sofre por ter escolhido amores efêmeros, sofre por não ter encontrado afeto. Sim, é possível escolher. Marilyn se separou de Joe DiMaggio, seu segundo marido, por querer transformá-la numa dona de casa. Um começo de relacionamento já conturbado, justamente por ter sido o pivô da separação de Margot, e um fim derradeiro: ficaram apenas nove meses juntos.  

Quantas vezes trocamos amores por ambições? Trocamos amores duradouros – com problemas, indefinições ou mesmo barreiras aparentemente intransponíveis – por afetos momentâneos?

Não é amor que machuca. O amor só fortalece. O que machuca é a manifestação do ego, o que para Marilyn era como que um vício.

A última peça dirigida por Marilia Pera deixa uma pergunta: que mulher você escolhe ser?

Um aviso: a resposta em reticências não é mais válida.


Serviço:
Oi, o quê? “Depois do Amor - um encontro com Marilyn Monroe”
Onde? Teatro Vannucci- Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente 52 – 3º andar, Gávea)
Ah, beleza. Quando?  Quinta a sábado 21h30, Domingo 20h. Até 6 de março.
E quanto custa? R$80



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O meu muso



     O meu muso

Aquele jeito dele de desabotoar a camiseta apenas com uma mão já me intrigou. E, confesso, o coração e o resto do corpo corresponderam imediatamente àquele simples gesto. Foi aqui e foi pra mim.

Ainda o sinto.

Parece que meu quarto ainda sente o cheiro daquele homem. Vem a mim, como que de rasteira, todas as lembranças. Vem o olhar, a forma de andar, as pernas grossas, o corpo duro. Vem no modo com que fala comigo sem se perder no meu olhar. Vem todo, vem inteiro.

E eu? Deitada como se no peito dele ainda estivesse.

Quando ele chegou eu era inteira, firme e segura. Mas, agora, eu o imploro. Imploro por mais um beijo, por mais um calor, um abraço com seu cheiro - cheiro de homem - e pela sua barba roçando meu corpo e causando um estranhamento que só gosto de viver de olhos fechados.

Fecho mais forte agora, só pra sentir ainda mais. Sentir quando ele me toca e arrepia meu corpo e quer ficar em mim como tatuagem.

Quando ele entra em mim, me retoma os sentidos como se num segundo eu perdesse a cabeça só pra me encontrar depois. E quando retomo o fôlego, lá está ele. Dentro. E em cima de mim.

Aqui ainda estamos, ofegantes, suados, enlouquecidos e mais conscientes do que nunca. Penso rápido: quero tudo e mais um pouco. Quero cada detalhe para que amanhã possa lembrar. E, quando for a hora de esquecer, fazer o meu corpo recordar.

Ao terminar, um abraço forte. O suficiente. Afinal, é o nosso abraço. A nossa energia irradiada pelo corpo inteiro. E o que antes era tesão, agora se tornou cumplicidade.

E eu? Eu pedi, com aquele olhar que só as mulheres pedem, para que ele ficasse. Ele entendeu, ele sempre entende. E ficou. E ficamos. 



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ele não soube o que fez


Ele não soube o que fez

Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha. E não demorou muito para a tristeza chegar.

Era assim que Berenice se sentia: triste. Não sentia falta de alguém, não estava carente, não pensava em fatos passados, muito menos tentava achar explicações possíveis. Ela só estava sem fim. Respirava fundo e parecia que o ar não acabava. A lágrima até secara, mas seu semblante era desolador. Um olhar perdido num infinito de possibilidades escuras e escusas.

Mas não foi assim que Julio a deixou. Berê, como ele mesmo a chamava, estava ensandecida. No dia fatídico ela entendera bem o real sentido do crime passional. De fato estava a ponto de cometer uma loucura. Por pouco, não recuperara a sanidade.

Quando Berenice descobriu a verdade se descontrolou por fora, mas por dentro estava certa do que fazia. Fechou os olhos e, num suspiro de coragem, foi atrás do flagrante. Assim que chegou naquela esquina, próximo onde o bonde a deixava para seguir para o trabalho, ela viu. Viu com seus próprios olhos os gracejos de Julio para com outra moça. Nada fez. Só esperou.

Primeiro o sorriso veio cúmplice. Depois veio gargalhada. E não demorou para que o beijo virasse um daqueles apaixonados.

Foi assim que a mais bela dama caiu do salto. Soltou um grito que poderia se escutar do início da rua. Julio ainda terminou o beijo, com muita calma. Nunca em tempo algum acreditaria que sua esposa estivesse testemunhando tudo.

Mas não foi assim que ele contou a família. Dissimulado, o fez com muito cuidado. Não assumiu. Aliás, nunca assumiria. Julio era o esposo perfeito, o mais bem quisto, o mais bem afortunado e em toda a história dos Campos nunca alguém haveria de ter passado uma vergonha dessas.

Quando Berenice fechou os olhos novamente procurando seu eixo, ela pensou em como os abriria novamente. E abriu. E olhou para frente. Subiu no salto novamente. Cruzou a esquina.

Primeiro veio o olhar. Depois a lágrima. E não demorou muito para o desespero chegar.
É assim que as mulheres sentem quando são traídas? Cheias de ódio que as deixa sem prumo? Sem chão? Vermelhas de raiva? Como recuperar o rubro dos lábios e partir? Cabeça erguida? Chance de conseguir voltar inteira para casa, isso sim importava.

Mas não foi assim que Matos a percebeu. Ele, distinto, não se assustou, mas, sim, sentiu uma vontade enorme de colocá-la entre seus braços.

Quando Berenice percebeu já estava sendo acolhida. E se sentiu confortável e estranhamente segura.


Primeiro veio o toque. Depois a percepção do quão belo ele era. E não demorou muito para virar vício. 



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Rio num dia de chuva

 

O Rio num dia de chuva

Chovia. E quando chove no Rio de Janeiro é a previsão do caos. No Centro da cidade, então... nem se fala. Aqui as pessoas não sabem andar de guarda-chuva. E de fato é complicado. Você tem que olhar para o chão – acredite, são muitas as poças d’água – pro carro que vai passar não jogar água suja na sua roupa limpa, e, principalmente, para o guarda-chuva da pessoa ao seu lado não bater no seu. A neurose é tanta que eu chego a ficar encolhida, agarrada à minha bolsa e com os ombros curvados e as mãos cruzadas tamanha é a vontade de seguir meu caminho sem surpresas.

Atravessar a rua faz parte desse capítulo “chuva no Centro do Rio”. Eu sempre traço uma reta e uma estratégia. Assim não piso em falso, mantenho a minha calça jeans limpa e  minha boca longe de palavrões.

Pausa. São segundos esperando o sinal fechar.

Que susto!

Porra, olho pro lado e tem um cara embaixo da minha sombrinha.

“Desculpa, posso pegar uma carona aqui”?

Se falei não lembro. Mas fiz que sim com a cabeça. Ia ser bem rapidinho – duas faixas de rolamento e só. Ok, duas indo e duas vindo. Mas, tudo ligeiro. E, além do mais, era gatinho. 
Não ia me custar nada.

Naqueles segundos, parada estava e parada fiquei. Olhei pro outro lado, parecendo preocupada e com pressa. Não queria de modo algum olhar pra ele de novo.

“Eu já te vi por aqui. Você trabalha aqui perto”?

Envergonhada, acho que pronunciei um sim entre os lábios.

Atravessamos.

E nessa eu vi o olhar dele de relance. Os meus continuam tímidos.

“Obrigado. Espero te reencontrar num dia de sol”. E lá se foi ele em direção ao Largo da Carioca.

Eu, quase que acamada na Avenida Paulista fria e distante, esbocei um sorriso de lado e me perguntei “sério, eu ouvi isso”?

Não demorou nem meia hora para que eu guardasse o kit chuva e tirasse o casaco. Afinal, esse é o Rio de Janeiro.

O sol voltou!

Ora, é outono. Faz frio e calor. Muda tanto o tempo quanto o meu estado de espírito. Só sei que meu caminho de volta pra casa foi outro por alguns dias. No claro intuito de não reencontrar o tal cara despojado e desprevenido.

Aquele cara devia estar por ali só naquele dia, resolvendo coisas. Mas por que ele perguntou se eu trabalhava por ali? Não, é mentira. Ele nunca me viu. É papo de homem. Tava querendo chamar minha atenção. Eu fico só sacando caras assim. Ele espera uma alma carente cair na lábia dele e créu. Coisa de cafajeste. Claro, deve ser o pior tipo de homem. Veja só. Quanta simpatia! Com uma desconhecida? Imagina eu casada com ele sabendo que ele fala com qualquer uma na rua? Nunca que ia confiar.

As semanas se passaram, eu esqueci do infortúnio e voltei à rotina. Mesmo caminho, mesmas ruas, mesmo sinal.

“Opa”!

Meu Deus, susto de  novo! Eu ando tão distraída. Como é que pode?

“Oi. Bom te ver. E dessa vez num dia tão bonito. Tanto quanto você”.

Jesus, que cantada barata. Devolve que esse aí veio com defeito.

“sabia que ia te ver de novo. Mas, sério... achei que tivesse sido demitida, sei lá... há muito que não te vejo por aqui”.

Olha ele, gente, puxando assunto pra ver se cola.

“Então.. não quero ais te encontrar por acaso”.

Pausa.

Até que olhando, assim, melhor, esse jeito malandro trabalhador é interessante. Esse olhar oblíquo que me deixa encabulada pode render mais. Tô bem precisando de uma aventura mesmo. Vidinha morna de amor romântico não mantém a gente em pé, não é? Vamos dar uma chance.

“A gente podia combinar um cineminha”.

Ah não. Brochei. Tem coisa mais casal que filme de sessão da tarde? E eu aqui crente que ia viver um começo de paixão avassaladora, um sexo descompromissado. Ah vá.

“Legal! Te pego na terça então”.


Pano preto. 



domingo, 29 de novembro de 2015

A tal da falta


A tal da falta

Você faz falta. Faz falta rosas na sala. Faz falta sua respiração. Faz falta seu chegar no portão. Faz falta o barulho da cama ao deitar. Faz falta leite quente pela manhã. Faz falta programar a próxima viagem. Faz falta minha mão nas suas coxas nuas. Faz falta meu corpo no seu. Faz falta beijo no nariz. Faz falta de mandar tomar banho. Faz falta brincar no chuveiro. 

Faz falta minha fala interrompendo a sua. Faz falta meu suor. Faz falta seu cheiro.  Faz falta reclamar da sua mãe. Faz falta cosquinha no pescoço. Faz falta música alta aos domingos. 

Faz falta escolher o cardápio. Faz falta fazer bolo. Faz falta seu quadril.

Faz falta seu sorriso. Faz falta seu cansaço, seu ressoar dormindo, meu acordar atrasado, nosso desespero e anseio pelo fim de mais um dia, você abrir a porta, se jogar cansado e eu reclamar de mais um dia puxado.

Faz falta o futuro. Falta o passado, recorro à angustia do presente e foco na incerteza.

Falta faz o seu espaço, a sua hora, a sua intimidade, o seu “me deixa quieto”. Faz também o seu silêncio, o seu olhar que ora implora trégua ora implora mais um round.

Faz falta seus desejos, o nosso desejo, o meu que se torna o seu num piscar de olhos. E lá estamos, num rompante, sendo um só mais uma vez.

Afinal, falta mais o quê? – eu grito.


Volta – sussurro baixinho.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma coxinha de galinha, por favor!


Uma coxinha de galinha, por favor!

Esperava uma amiga. E, como ainda estava sozinha, pedi um chopp gelado. Nada contra esperar ou ficar sozinha em bar. Mas o amarelinho tem que me acompanhar. Pra mim, ajuda a distrair e o tempo passa mais gostoso.

Ela sempre fala “vamos no Sat’s”! e eu sempre fico arredia pra ir pra lá. Sempre tem algum outro compromisso e eu – confesso – evito aquela redoma. Sim, a gente senta ali e quando vê, ops, três da manhã. É muita gente boa, é muita gente bonita, é muito papo animado e sempre chega um petisco de surpresa. Falam do galeto, mas eu fico com o coração de galinha. E, olha, eu NÂO como coração de galinha – por pena mesmo. Mas ali eu me rendo.

Eu pedi o cardápio só pra olhar o que  tinha pra me oferecer. Na verdade, o Sat’s não precisa de menu. Sempre, invariavelmente, alguém vai aparecer para dar uma sugestão.

E assim o foi. Quando vejo, Ricardo está em pé na minha frente. Levei um susto porque não o via há meses. Posso dizer anos? Ele sem pestanejar deu o palpite dele: “pede o sanduíche de filet mignon com abacaxi”.

Pano preto. Vejam só minha cara.

Eu, na cara, falei: “querido, você tá confundindo com o vizinho. É o Cervantes que serve isso”.
Pense numa pessoa irônica. Prazer, eu.

Sem nem perguntar, ele se sentou. Graças a Deus, não pediu uma cerveja.  O papo continuou e ele tentou ser amistoso. Mas, acontece que não consigo. Ser uma mulher centrada, bem resolvida e discreta não significa aturar tudo. Ricardo ainda me fazia mal, me trazia lembranças ruins, de uma espécie de homem que devia ser extinta.

Estava no fundo do bar, perto do banheiro. Ali sempre é mais calmo no fim da noite. Não sei por que escolhi aquele lugar, já que eu gosto de ver movimento, falar da roupa dos outros, inventar história de vida de quem tá passando pela calçada e reparar na conversa da mesa ao lado. Mas ali estava, ali fiquei.

Ricardo ameaçou um discurso de desculpa pelas coisas que fez, mas muuuito tímido. Ameaçou uma tentativa de “vamos tentar de novo”, mas muuuito tímido. Tentou a aproximação de corpos , mas, bem, muito, muito tímido. E eu que sou exatamente o contrário disso, brinco com quem tem esse tipo de atitude. Quando tô segura, então, ninguém me segura.

Vem uma força interior que me faz subir no salto 15, ter uma barriga chapada e um cabelo ao vento. Ah, e detalhe: ando até em slow motion só para humilhar mesmo.

“Bia! Oi, Bia! Que bom que você chegou. Lembra do Ricardo?” Minha amiga não é tão dissimulada quanto eu, e acabou sendo simpática. Deu dois beijinhos e me arrastou pra mesa de banco alto do lado de fora. A desculpa poderia ter sido “quero um cigarro e aqui dentro não dá, né, Juliana? Você não sabe disso?” Mas não foi.

Bia só olhou pra mim e soltou um sorriso largo e um olhar cúmplice. “Vamos, Rafael tá te esperando lá na frente”.

Beijo, querido.


Tchau, até a próxima. 



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Se há amor, resista

 

Se há amor, resista

“Não há amor que resista”. Foi o que ele me disse quando a primeira briga começou. Ok, não foi a primeira, mas a mais séria de todas. Nunca fomos um casal de discutir ou ter que conversar sobre todas as coisas. Alguém sempre cedia.

            Mas desta vez eu que não cedo. Cansei de ceder, me entende? Cansei de me calar. Cansei de pensar que ia passar e tudo ia ficar bem. Cansei de tentar de novo. Cansei de esquecer e ter que passar por cima. Decidi, ergui a cabeça e falei. Não falei muito, por toda a eternidade nem o fiz lembrar-se dos sermões de sua mãe. Mas, sim, falei de forma objetiva. Direta como nunca tinha sido em todos esses anos.

            Ele não retrucou. Não respondeu nem esboçou reação. Ele só saiu. E me deixou sozinha. Essa foi a pior parte, embora, no fundo, tenha gostado. Me senti aliviada por ele ter dado as costas. Afinal, era melhor encerrar por ali. Não sabia onde aquilo iria parar.

            Foi ali que o alivio virou desespero. Ele havia ido.

Balela, pensei.

Respirei fundo e mantive a postura ereta. Por dentro buscava forças enquanto recuperava o ar e procurava as palavras que se afugentaram.

Passou.

Tomei coragem.

E fui a sua procura.

Quando olhei pela fresta da porta – do nosso quarto – o vi deitado com os olhos fixos no teto branco.

Não pensei.

Fui até ele.

Cheguei perto. Encostei. Puxei seu queixo em minha direção. E eu, cúmplice e pecadora, deixei que os meus lábios tocassem nos seus.

Devagar.

Um segundo de olhos abertos. O segundo do perdão. Nos segundos seguintes, só amor.