terça-feira, 1 de março de 2016

Liberto, ainda que tardia


Liberto, ainda que tardia

Encontrei em mim um laço forte
Afiado
Suado
Laminado
Preparado
Apertado
Suave e emaranhado
Livre e descoberto
Risonho e esperançoso

Encontrei em mim um nó feito
Com cuidado tecido há anos
Com cheiro de pétalas
E cor avermelhada
No verão dá frutos
E no inverso se recolhe
No outono, ainda assim, escolhe
O renascer primaveril

Encontrei em mim o aperto perfeito
Que espera
E caminha calmo
Que respira
E segue firme
Que aguarda
E se resguarda




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O meu muso



     O meu muso

Aquele jeito dele de desabotoar a camiseta apenas com uma mão já me intrigou. E, confesso, o coração e o resto do corpo corresponderam imediatamente àquele simples gesto. Foi aqui e foi pra mim.

Ainda o sinto.

Parece que meu quarto ainda sente o cheiro daquele homem. Vem a mim, como que de rasteira, todas as lembranças. Vem o olhar, a forma de andar, as pernas grossas, o corpo duro. Vem no modo com que fala comigo sem se perder no meu olhar. Vem todo, vem inteiro.

E eu? Deitada como se no peito dele ainda estivesse.

Quando ele chegou eu era inteira, firme e segura. Mas, agora, eu o imploro. Imploro por mais um beijo, por mais um calor, um abraço com seu cheiro - cheiro de homem - e pela sua barba roçando meu corpo e causando um estranhamento que só gosto de viver de olhos fechados.

Fecho mais forte agora, só pra sentir ainda mais. Sentir quando ele me toca e arrepia meu corpo e quer ficar em mim como tatuagem.

Quando ele entra em mim, me retoma os sentidos como se num segundo eu perdesse a cabeça só pra me encontrar depois. E quando retomo o fôlego, lá está ele. Dentro. E em cima de mim.

Aqui ainda estamos, ofegantes, suados, enlouquecidos e mais conscientes do que nunca. Penso rápido: quero tudo e mais um pouco. Quero cada detalhe para que amanhã possa lembrar. E, quando for a hora de esquecer, fazer o meu corpo recordar.

Ao terminar, um abraço forte. O suficiente. Afinal, é o nosso abraço. A nossa energia irradiada pelo corpo inteiro. E o que antes era tesão, agora se tornou cumplicidade.

E eu? Eu pedi, com aquele olhar que só as mulheres pedem, para que ele ficasse. Ele entendeu, ele sempre entende. E ficou. E ficamos. 



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oi! Sou eu! Prazer.

 

Oi! Sou eu! Prazer.

A vida se encarrega. Foi ela que me pegou pelos braços e me trouxe até aqui.

Foi ela quem me viu por aí solitária, meio perdida e me fisgou. Foi essa aí mesmo que me disse que eu era forte, que eu impunha já meu jeito de andar as certezas dela mesma.

Numa manhã de um dia desses, ela virou para mim e disse: vai!

E eu? Atônita. Vou pra onde?

Onde me acho? Onde me encaixo?

A resposta não veio. Mas eu fui. Corpo ereto, concentrada e focada num ponto fixo logo à frente.

Ops.

Tropecei.

Merda.

Olhei pra baixo instintivamente checando meu corpo, se havia machucado, se havia me ferido, se havia sangue. Calma, guria! Tá tudo certo!!

Ergui meus olhos e lá estava ele.

A morte, pensei.

Puta que pariu.

É só ficar tudo bem, tudo caminhando como tem que caminhar, tudo dando certo que vem a porra de uma distração qualquer que te joga no chão.

Muito rápido levantei.

Ok, bora encarar a morte de frente.

Foi só eu tentar balbuciar alguma coisa que o vento forte me fez perder os sentidos. Fiquei confusa, tanto que não sentia meus pés firmes. Aquela força toda me faria volitar. Eu me abati na hora. Até tentei manter a ordem das coisas, mas não enxergava realmente mais nada.

Passou. Coração já vai voltando, batendo conforme os padrões da normalidade.

Pausa.

Ele continuava lá. Na minha frente, parado.

Voltei a tentar falar. Nesse momento veio uma fraqueza nas pernas, uma tontura, quase caio mesmo sem nada ter acontecido. Será que essa coisa está influenciando o meu inconsciente?

Em pensamento, neguei.

E ele? Ele continuou lá, no mesmo lugar.

Continuei dizendo "nãos" intermináveis dentro de mim. A negação àquilo tudo era como um eco.

Nada mudava.

Até que, enfim, a tormenta passou.

O sol apareceu! Ufa!

Abri um sorriso tímido.

Dessa vez eu esperei. Não me precipitei em saber o que estava acontecendo. Só agradeci ao alívio que senti. É bom manter os pés firmes.

E de uma forma muito calma e cordial, olhando fico nos meus olhos, ele me diz: prazer, sou eu, a paixão.


Morri!  



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Homem Bonito


Homem Bonito

Eu sou daquelas mulheres que gosta de ver um homem bonito. E pra ser bonito não precisa ser um Adonis.

Um homem bonito tem saber olhar, tocar, se deixar ser olhado e deixar ser tocado.

Um homem bonito traz flores, ainda que de mãos vazias. Beija na boca como se fosse a última.

Um homem bonito não precisa ter “tanquinho”. Aliás, em alguns casos, pode até ter barriguinha...ou barriga... rs...

Ele, pra ser bonito, tem que mostrar que lê. Que tem cultura. Que sabe um tantinho mais que você.

Tem que amar futebol, mas deixar o jogo pra lá só por causa de você.

Precisa te admirar, pra ser bonito.

E te olhar...e te querer...

E tem que te achar bela de manhã, à noite, de dia. Com roupa, sem roupa. Penteada, despenteada.

E quando você não estiver a fim, pra ser bonito, o homem tem que entender...


Ahh! Homem bonito! Cadê você?


***Escrito por Helenildes Alcantara, minha mãe. Leia outro texto dela aqui



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ele não soube o que fez


Ele não soube o que fez

Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha. E não demorou muito para a tristeza chegar.

Era assim que Berenice se sentia: triste. Não sentia falta de alguém, não estava carente, não pensava em fatos passados, muito menos tentava achar explicações possíveis. Ela só estava sem fim. Respirava fundo e parecia que o ar não acabava. A lágrima até secara, mas seu semblante era desolador. Um olhar perdido num infinito de possibilidades escuras e escusas.

Mas não foi assim que Julio a deixou. Berê, como ele mesmo a chamava, estava ensandecida. No dia fatídico ela entendera bem o real sentido do crime passional. De fato estava a ponto de cometer uma loucura. Por pouco, não recuperara a sanidade.

Quando Berenice descobriu a verdade se descontrolou por fora, mas por dentro estava certa do que fazia. Fechou os olhos e, num suspiro de coragem, foi atrás do flagrante. Assim que chegou naquela esquina, próximo onde o bonde a deixava para seguir para o trabalho, ela viu. Viu com seus próprios olhos os gracejos de Julio para com outra moça. Nada fez. Só esperou.

Primeiro o sorriso veio cúmplice. Depois veio gargalhada. E não demorou para que o beijo virasse um daqueles apaixonados.

Foi assim que a mais bela dama caiu do salto. Soltou um grito que poderia se escutar do início da rua. Julio ainda terminou o beijo, com muita calma. Nunca em tempo algum acreditaria que sua esposa estivesse testemunhando tudo.

Mas não foi assim que ele contou a família. Dissimulado, o fez com muito cuidado. Não assumiu. Aliás, nunca assumiria. Julio era o esposo perfeito, o mais bem quisto, o mais bem afortunado e em toda a história dos Campos nunca alguém haveria de ter passado uma vergonha dessas.

Quando Berenice fechou os olhos novamente procurando seu eixo, ela pensou em como os abriria novamente. E abriu. E olhou para frente. Subiu no salto novamente. Cruzou a esquina.

Primeiro veio o olhar. Depois a lágrima. E não demorou muito para o desespero chegar.
É assim que as mulheres sentem quando são traídas? Cheias de ódio que as deixa sem prumo? Sem chão? Vermelhas de raiva? Como recuperar o rubro dos lábios e partir? Cabeça erguida? Chance de conseguir voltar inteira para casa, isso sim importava.

Mas não foi assim que Matos a percebeu. Ele, distinto, não se assustou, mas, sim, sentiu uma vontade enorme de colocá-la entre seus braços.

Quando Berenice percebeu já estava sendo acolhida. E se sentiu confortável e estranhamente segura.


Primeiro veio o toque. Depois a percepção do quão belo ele era. E não demorou muito para virar vício.