terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ele não soube o que fez


Ele não soube o que fez

Primeiro veio a raiva. Depois a vergonha. E não demorou muito para a tristeza chegar.

Era assim que Berenice se sentia: triste. Não sentia falta de alguém, não estava carente, não pensava em fatos passados, muito menos tentava achar explicações possíveis. Ela só estava sem fim. Respirava fundo e parecia que o ar não acabava. A lágrima até secara, mas seu semblante era desolador. Um olhar perdido num infinito de possibilidades escuras e escusas.

Mas não foi assim que Julio a deixou. Berê, como ele mesmo a chamava, estava ensandecida. No dia fatídico ela entendera bem o real sentido do crime passional. De fato estava a ponto de cometer uma loucura. Por pouco, não recuperara a sanidade.

Quando Berenice descobriu a verdade se descontrolou por fora, mas por dentro estava certa do que fazia. Fechou os olhos e, num suspiro de coragem, foi atrás do flagrante. Assim que chegou naquela esquina, próximo onde o bonde a deixava para seguir para o trabalho, ela viu. Viu com seus próprios olhos os gracejos de Julio para com outra moça. Nada fez. Só esperou.

Primeiro o sorriso veio cúmplice. Depois veio gargalhada. E não demorou para que o beijo virasse um daqueles apaixonados.

Foi assim que a mais bela dama caiu do salto. Soltou um grito que poderia se escutar do início da rua. Julio ainda terminou o beijo, com muita calma. Nunca em tempo algum acreditaria que sua esposa estivesse testemunhando tudo.

Mas não foi assim que ele contou a família. Dissimulado, o fez com muito cuidado. Não assumiu. Aliás, nunca assumiria. Julio era o esposo perfeito, o mais bem quisto, o mais bem afortunado e em toda a história dos Campos nunca alguém haveria de ter passado uma vergonha dessas.

Quando Berenice fechou os olhos novamente procurando seu eixo, ela pensou em como os abriria novamente. E abriu. E olhou para frente. Subiu no salto novamente. Cruzou a esquina.

Primeiro veio o olhar. Depois a lágrima. E não demorou muito para o desespero chegar.
É assim que as mulheres sentem quando são traídas? Cheias de ódio que as deixa sem prumo? Sem chão? Vermelhas de raiva? Como recuperar o rubro dos lábios e partir? Cabeça erguida? Chance de conseguir voltar inteira para casa, isso sim importava.

Mas não foi assim que Matos a percebeu. Ele, distinto, não se assustou, mas, sim, sentiu uma vontade enorme de colocá-la entre seus braços.

Quando Berenice percebeu já estava sendo acolhida. E se sentiu confortável e estranhamente segura.


Primeiro veio o toque. Depois a percepção do quão belo ele era. E não demorou muito para virar vício. 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O próximo encontro

 
O próximo encontro

Uma mão lava a outra. O que tem que ser seu arranja uma maneira de chegar a você. Uma porta se fecha, mas uma janela se abre.

A vida é tão feita de certezas. Não sei por que eu perco tanto tempo pensando nela. Se já está tudo na frente, todos os sinais, todos os caminhos traçados, por que eu resolvi ser racional?

Eu tô falando sério. Eu sou tão racional, que chega ao ponto de quando eu estou chorando eu penso: por que eu tô chorando? Eu mereço esse choro? E se eu tivesse feito tudo diferente?

Queria ser como essas pessoas que choram por chorar. Que deixam tudo escorrer em meia hora de choro descontrolado e depois seguem sua vida. Vivem o luto, sabe?

Mas como assim? Como assim viver o luto, é possível? É ficar triste e se permitir ficar triste?? Eu heim. Eu não!

Tô fora!

Não me permito!

Pronto. Não me permito.

Inclusive já tô indo tomar o meu banho e ficar cheirosa pro meu próximo date. Ele é alto, gato, tem uma barba daquela eu gosto – quem me conhece, sabe – e me abraça como ninguém. Putz, me fez lembrar o passado. Meu pretérito passado tem um abraço que encaixa em mim que é uma coooiiisaaaaa!

Opa, parou!

Cabeça fria.

Bruno tem um sorriso largo e é cavalheiro, uma qualidade que merece ser destacada de tão raro que se tornou. Ele faz o que eu gosto e se esforça pra me fazer feliz.

Então, é com esse vou!


Ops, me atrasei. Deixa correr aqui. Beijo, me liga, tchau.  



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Samuel, o indeciso?


Samuel, o indeciso?

Depois de alguns meses sem ir à academia, resolvi voltar. Na verdade, fui obrigada a retomar a rotina de exercícios físicos. Tive que dar um tempo porque o joelho direito não se adaptou muito bem a pegar tanto peso. Era agachamento daqui, extensora dali... tadinho... “Inflexibilidade”, minha mãe diria recorrendo a medicina holística misturada ao novo livro de meditação que ela está lendo. Owwwnnnn, digo eu.

Foi só eu chegar e ver Samuel de longe. Estava trocando uma ideia com um amigo enquanto tomava um suco giga – sério, devia ter um litro de qualquer coisa batida com ovo naquele copo. De cara eu pensei: “tem coisa que não muda nunca”.

É, tem mesmo. Continuo tímida. Nesse ponto, nada mudou. Abaixei a cabeça e fingi que não o tinha visto. Passei direto e fui encher minha garrafinha de água para começar a sessão tortura.

Até que: ele se materializa do meu lado. “Oi, gata”, falou de canto de boca. Gelei. E olhei pra cima. Claro, ele bem mais alto que eu. “Oi”, respondi e imaginei que meu rosto estava vermelho de vergonha. “Tá tão sumida... você tá bem?”. Achei até fofo e em poucas palavras expliquei o que tinha acontecido. Rapidinho já estava eu em pé na esteira tentando ligar o equipamento. Eu tinha esquecido como se mexia naquela máquina com múltiplos botões. “Ainda bem que você tá aqui... valeu por ajudar”, retribuí a fofura dele.

Nem tive tempo de abrir o livro de física quântica que tinha levado para passar os trinta minutos de caminhada leve que tinha como meta. Ficamos conversando amenidades e rindo com as histórias de outras pessoas que ele conhecia que tinha problemas nas articulações, assim como eu. Ele mesmo já teve um problema sério no ombro quando criança. Me deu uma aula de anatomia, juro. Depois de alguns minutos, meu rosto já corava de novo... mas, dessa vez, pelo esforço que fazia.

Samuel resolveu encarar a esteira do lado e se aventurou a andar comigo. A conversa continuou e eu me surpreendi. Sinceramente, não acreditava em mais de 30 minutos de troca de ideias interessante. Preconceito é uma merda mesmo. Ainda bem que dei a chance. 

Perderia uma boa companhia facilmente por achar aquele gato e rato de academia uma cabeça de minhoca.

Voltando, foram exatos 25 minutos caminhando juntos – e na mesma velocidade, acho que por gentileza dele. Nos últimos cinco, bem no finalzinho, ele acelerou para a corrida que o deixaria esbaforido no fim da noite. Eu saí dali, pedi um suco de laranja com cenoura e inconscientemente o esperei.

Poderia ter ido embora daquele lugar que tanto odeio, mas não fui. Quando ele finalizou a série de exercícios, veio a mim e malandramente falou: “e aí, gata, vamos? Vamos juntos caminhando pra casa? Onde você mora?”.

Eu nem respondi. Ou se respondi, não faço ideia. Quando vi já estávamos fora da “casa de tortura” continuando o papo tranquilo. Não lembro sobre o que conversávamos. Na verdade, isso é o que menos importa. O que vale aqui foi a atitude dele e a minha em conseguir me envolver e manter a atenção no que ele falava.

Quando cheguei na porta de casa, só disse “chegamos”. E ele? Abriu um sorrisão. Agarrou minha nuca, trouxe minha boca pra perto da dele, deu um selinho bem apertado e mandou: “então, até amanhã! Amanhã te vejo de novo, né? Academia agora é toda dia e todo dia e todo dia”.

Fiz que sim com a cabeça, ainda meio zonza e segui meu caminho. Quando entrei em casa comecei a me dar conta do que aconteceu. “Putz, não acredito que não nos beijamos! Que quê acontece com esses caras de hoje em dia? Eu heim...”

Interfone tocou. Porteiro me mandando descer porque Samuel estava lá embaixo.
Para tudo!

“Não, manda subir”. Meu joelho dói e eu tô precisando um pouco de intimidade, né? Agora eu pego ele, pensei.

Samuel saiu do elevador procurando o número do apartamento. Eu só observei e esperei ele me encontrar com o olhar. Quando achou, eu dei um sorriso. E ele retribuiu. Eu não me mexi. O negro alto veio perto, pegou minha nunca do mesmo jeito que antes e me deu um beijo cinematográfico.

“Agora sim”, recuperado o fôlego, disse baixinho aos pés do ouvido dele.  






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

2015, desapega! 2016, ressignifica!


2015, desapega! 2016, ressignifica!

Maria foi dormir pensando em desapegar. Em arrumar seu armário e deixar numa sacola tudo que poderia ser doado ou – o que não servia mexxxmo – jogado fora. Ela não era de juntar lixo, mas cantinhos sempre amontoam um pouco de sujeira, né? E se você não toma uma providência de tempos em tempos, já se sabe.

Minunciosamente ela pensou em como reorganizaria tudo que tinha. Ok, não era muita coisa assim. Primeiro pensou em tipo, depois em cores, depois em tamanhos – saia curta, saia longa, calça e short. Montou uma cena na cabeça e não gostou do que viu. Passou imediatamente às gavetas. Os cabides depois ela resolveria. Quantas gavetas eram e o que deixaria em cada uma.

Beleza, resolvido.

Agora, para de pensar, Maria. Vai dormir que amanhã tem mais.

Boa noite.

Bom dia!

Maria não acordou lá muito disposta, mas encarou o desafio do ano: tirar tuuudoooo do guarda-roupa e desapegar. Começou devagar, em passos leves e cabeça fria. Afinal, não seria tão difícil.

Até que se deparou com aquela blusa comprada para um jantar especial. A noite que usara nem tinha sido tão boa assim, mas ela gostava e muito daquele tom de azul. Pegou no pano macio e sentou na cama. Ensaiou um choro.

Pensou que era bom desapegar para dar espaço para algo novo entrar. Mas ela não queria. Não queria se desfazer. E pronto. Maria tem esse direito. Maria escolheu continuar com a blusa azul petróleo. Resolveu que dali ela não saía, dali ninguém a tirava.

Não ligou para nenhuma amiga pedindo conselhos. Simplesmente o fez.

E com vontade própria. Afinal, Maria pôde decidir!

Passou para os sapatos. E essa foi a fase mais rápida e fácil da arrumação. Nunca foi tão eficiente e decidida a Maria, meu Deus! Até ela se assustou com o feito.

Ficara feliz por ter conseguido se livrar daquela bagunça e estava pronta para entrar no próximo ciclo de arrumação. Que viria outro dia, convenhamos.

Quando terminou tudo, pegou sua blusa azul e colocou para lavar. Havia muito que não usava e estava na hora de ostentar seu brilho por aí!

Alguns poucos minutos depois, Raquel liga para a amiga. Queria sair com Maria.

Maria, cansada, resmungou: “Ai, tô morta”.

Raquel não se fez de rogada e correu para o portão clamando pelo bom papo que as duas tinham.

Ok, Maria cedeu. E lá foram elas.

Raquel de vestido rendado branco – brindando o ano novo que se aproximava.

E Maria de saia envelope e a blusa tão malfadada – combinando elegantemente com os fogos de artifício.

Os sorrisos esperançosos se emaranhavam com os sons estrondosos dos primeiros minutos de 2016. Os suores limpavam o rosto e o champanhe limpava a alma. Dando lugar ao que seria um dos melhores anos de suas vidas.


Digo um dos, porque nunca podemos saber o que de tão bom nos espera. E sim, sempre pode ser incrível!



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A outra beleza [Resposta ao post anterior]

A outra beleza

É muito interessante quando a gente sofre tentando encontrar a si mesma.

A busca pela autoperfeição é um drama! Tanto sob o aspecto físico, o que, convenhamos, depois dos cinquenta fica apenas no sonho. Mesmo que se faça plástica ou se coloque botox. Aliás, lábios inchados nunca foi sinal de beleza. Aff...

Quanto no íntimo, tanto no pessoal!

Que ilusão será esta que faz com que algumas mulheres, muito mais que os homens, tentem tanto esconder suas idades e não percebem que estas vãs tentativas as fazem ainda mais velhas!!!???

Pode ser que eu esteja errada, mas os monstros que eu tenho visto me fazem gostar ainda mais das minhas rugas.

Mas, eu não quero me repetir falando delas outra vez. Prefiro falar do autoaperfeiçoamento interno, íntimo. Procuro a perfeição que me nutre, que me faz voar, me faz crescer.  Aquela que de fato nos torna mais belos, ainda que as indústrias queiram nos fazer acreditar no contrário.

Não! Não falarei de estéticas visuais! Hoje acordei com vontade de falar da grande necessidade que sinto em me tornar outra pessoa. Hoje quero deixar de lado a neurose de estar fisicamente bem. Quero deixar de lado a busca insana pela eterna juventude.

Hoje eu quero falar de mim. Não do meu corpo, não da minha aparência.

Quero falar do amor que estou aprendendo a sentir, do conhecimento que adquiri nestes 54 anos de vida. Do quanto caminhei  e do quanto ainda preciso e desejo caminhar

Quero falar dessa outra beleza. Da beleza interior. Da única verdadeira, já que sem esta a outra não sobrevive.

A beleza da Alma é a que nos nutre de juventude, de amor, de leveza.

Uma Alma triste num corpo belo? Não quero! É pura ilusão. É impossível que alguém de alma triste revele alguma beleza. Porque a tristeza não é bonita.


Belo é ter a Alma leve, feliz, suave. Por mais que queiramos acreditar que ter um corpo escultural (acho bem ridícula esta expressão) seja o sonho de todas as mulheres, no fundo, nem tão fundo assim, todas nós sabemos que o que queremos mesmo é que sejamos aceitas e amadas apesar da nossa aparência real. 


*** Texto escrito por Helenildes Alcantara, minha mãe, em resposta ao post anterior. ***



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Rio num dia de chuva

 

O Rio num dia de chuva

Chovia. E quando chove no Rio de Janeiro é a previsão do caos. No Centro da cidade, então... nem se fala. Aqui as pessoas não sabem andar de guarda-chuva. E de fato é complicado. Você tem que olhar para o chão – acredite, são muitas as poças d’água – pro carro que vai passar não jogar água suja na sua roupa limpa, e, principalmente, para o guarda-chuva da pessoa ao seu lado não bater no seu. A neurose é tanta que eu chego a ficar encolhida, agarrada à minha bolsa e com os ombros curvados e as mãos cruzadas tamanha é a vontade de seguir meu caminho sem surpresas.

Atravessar a rua faz parte desse capítulo “chuva no Centro do Rio”. Eu sempre traço uma reta e uma estratégia. Assim não piso em falso, mantenho a minha calça jeans limpa e  minha boca longe de palavrões.

Pausa. São segundos esperando o sinal fechar.

Que susto!

Porra, olho pro lado e tem um cara embaixo da minha sombrinha.

“Desculpa, posso pegar uma carona aqui”?

Se falei não lembro. Mas fiz que sim com a cabeça. Ia ser bem rapidinho – duas faixas de rolamento e só. Ok, duas indo e duas vindo. Mas, tudo ligeiro. E, além do mais, era gatinho. 
Não ia me custar nada.

Naqueles segundos, parada estava e parada fiquei. Olhei pro outro lado, parecendo preocupada e com pressa. Não queria de modo algum olhar pra ele de novo.

“Eu já te vi por aqui. Você trabalha aqui perto”?

Envergonhada, acho que pronunciei um sim entre os lábios.

Atravessamos.

E nessa eu vi o olhar dele de relance. Os meus continuam tímidos.

“Obrigado. Espero te reencontrar num dia de sol”. E lá se foi ele em direção ao Largo da Carioca.

Eu, quase que acamada na Avenida Paulista fria e distante, esbocei um sorriso de lado e me perguntei “sério, eu ouvi isso”?

Não demorou nem meia hora para que eu guardasse o kit chuva e tirasse o casaco. Afinal, esse é o Rio de Janeiro.

O sol voltou!

Ora, é outono. Faz frio e calor. Muda tanto o tempo quanto o meu estado de espírito. Só sei que meu caminho de volta pra casa foi outro por alguns dias. No claro intuito de não reencontrar o tal cara despojado e desprevenido.

Aquele cara devia estar por ali só naquele dia, resolvendo coisas. Mas por que ele perguntou se eu trabalhava por ali? Não, é mentira. Ele nunca me viu. É papo de homem. Tava querendo chamar minha atenção. Eu fico só sacando caras assim. Ele espera uma alma carente cair na lábia dele e créu. Coisa de cafajeste. Claro, deve ser o pior tipo de homem. Veja só. Quanta simpatia! Com uma desconhecida? Imagina eu casada com ele sabendo que ele fala com qualquer uma na rua? Nunca que ia confiar.

As semanas se passaram, eu esqueci do infortúnio e voltei à rotina. Mesmo caminho, mesmas ruas, mesmo sinal.

“Opa”!

Meu Deus, susto de  novo! Eu ando tão distraída. Como é que pode?

“Oi. Bom te ver. E dessa vez num dia tão bonito. Tanto quanto você”.

Jesus, que cantada barata. Devolve que esse aí veio com defeito.

“sabia que ia te ver de novo. Mas, sério... achei que tivesse sido demitida, sei lá... há muito que não te vejo por aqui”.

Olha ele, gente, puxando assunto pra ver se cola.

“Então.. não quero ais te encontrar por acaso”.

Pausa.

Até que olhando, assim, melhor, esse jeito malandro trabalhador é interessante. Esse olhar oblíquo que me deixa encabulada pode render mais. Tô bem precisando de uma aventura mesmo. Vidinha morna de amor romântico não mantém a gente em pé, não é? Vamos dar uma chance.

“A gente podia combinar um cineminha”.

Ah não. Brochei. Tem coisa mais casal que filme de sessão da tarde? E eu aqui crente que ia viver um começo de paixão avassaladora, um sexo descompromissado. Ah vá.

“Legal! Te pego na terça então”.


Pano preto. 



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Eu só sei viver

Eu só sei viver

Quando eu tinha uns 14 anos, uma das saídas que fazíamos quando éramos jovens – cinema seguido de lanchinho – uma escolheu beber suco de laranja enquanto todos iam  na Coca. Até aí nada demais. O que me intrigou foi a explicação para algo que na época era usual: “não quero ter celulite”. Na mesma hora, pensei: ih, neurótica! Tão nova e tão preocupada, se poupando de viver, mal sabe ela que estresse faz a gente acumular líquido. 

E quantos não foram os arranca-cabelos que geraram umas covinhas no meu bumbum nos últimos anos?

Minha mãe há uns anos falava aos quatro ventos, “quero ser uma velhinha fofa, querida e amiga dos meus netos, daquelas com cabelo branco que deseduca os filhos da minha filha”. Ok, o tempo passou. E ela? Pinta o cabelo a cada quinze dias. Tricô? Nem pensa. Não saber nem pregar botão. Mas ainda continua com o sonho de pegar seu netinho no colo.

Eu me pergunto de onde vem esse medo de envelhecer. Não que eu ache que seja boa. Muuuuito pelo contrário... deve ser um porre! Imagina as minhas dores na coluna triplicadas? Imagina ser tratada como criança? Imagina demorar horas para fazer alguma coisa que eu fazia em meros minutos?

É inevitável. Taí uma coisa que quero estar viva para ver. Não sei se vou esbanjar saúde, se vou aparentar a idade que tenho, se vou descobrir novas formas de fazer sexo ou se vou rir das mesmas coisas. Sei sim que terei muitas histórias para contar. Porque se há uma coisa que faço bem é viver!






domingo, 29 de novembro de 2015

A tal da falta


A tal da falta

Você faz falta. Faz falta rosas na sala. Faz falta sua respiração. Faz falta seu chegar no portão. Faz falta o barulho da cama ao deitar. Faz falta leite quente pela manhã. Faz falta programar a próxima viagem. Faz falta minha mão nas suas coxas nuas. Faz falta meu corpo no seu. Faz falta beijo no nariz. Faz falta de mandar tomar banho. Faz falta brincar no chuveiro. 

Faz falta minha fala interrompendo a sua. Faz falta meu suor. Faz falta seu cheiro.  Faz falta reclamar da sua mãe. Faz falta cosquinha no pescoço. Faz falta música alta aos domingos. 

Faz falta escolher o cardápio. Faz falta fazer bolo. Faz falta seu quadril.

Faz falta seu sorriso. Faz falta seu cansaço, seu ressoar dormindo, meu acordar atrasado, nosso desespero e anseio pelo fim de mais um dia, você abrir a porta, se jogar cansado e eu reclamar de mais um dia puxado.

Faz falta o futuro. Falta o passado, recorro à angustia do presente e foco na incerteza.

Falta faz o seu espaço, a sua hora, a sua intimidade, o seu “me deixa quieto”. Faz também o seu silêncio, o seu olhar que ora implora trégua ora implora mais um round.

Faz falta seus desejos, o nosso desejo, o meu que se torna o seu num piscar de olhos. E lá estamos, num rompante, sendo um só mais uma vez.

Afinal, falta mais o quê? – eu grito.


Volta – sussurro baixinho.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma coxinha de galinha, por favor!


Uma coxinha de galinha, por favor!

Esperava uma amiga. E, como ainda estava sozinha, pedi um chopp gelado. Nada contra esperar ou ficar sozinha em bar. Mas o amarelinho tem que me acompanhar. Pra mim, ajuda a distrair e o tempo passa mais gostoso.

Ela sempre fala “vamos no Sat’s”! e eu sempre fico arredia pra ir pra lá. Sempre tem algum outro compromisso e eu – confesso – evito aquela redoma. Sim, a gente senta ali e quando vê, ops, três da manhã. É muita gente boa, é muita gente bonita, é muito papo animado e sempre chega um petisco de surpresa. Falam do galeto, mas eu fico com o coração de galinha. E, olha, eu NÂO como coração de galinha – por pena mesmo. Mas ali eu me rendo.

Eu pedi o cardápio só pra olhar o que  tinha pra me oferecer. Na verdade, o Sat’s não precisa de menu. Sempre, invariavelmente, alguém vai aparecer para dar uma sugestão.

E assim o foi. Quando vejo, Ricardo está em pé na minha frente. Levei um susto porque não o via há meses. Posso dizer anos? Ele sem pestanejar deu o palpite dele: “pede o sanduíche de filet mignon com abacaxi”.

Pano preto. Vejam só minha cara.

Eu, na cara, falei: “querido, você tá confundindo com o vizinho. É o Cervantes que serve isso”.
Pense numa pessoa irônica. Prazer, eu.

Sem nem perguntar, ele se sentou. Graças a Deus, não pediu uma cerveja.  O papo continuou e ele tentou ser amistoso. Mas, acontece que não consigo. Ser uma mulher centrada, bem resolvida e discreta não significa aturar tudo. Ricardo ainda me fazia mal, me trazia lembranças ruins, de uma espécie de homem que devia ser extinta.

Estava no fundo do bar, perto do banheiro. Ali sempre é mais calmo no fim da noite. Não sei por que escolhi aquele lugar, já que eu gosto de ver movimento, falar da roupa dos outros, inventar história de vida de quem tá passando pela calçada e reparar na conversa da mesa ao lado. Mas ali estava, ali fiquei.

Ricardo ameaçou um discurso de desculpa pelas coisas que fez, mas muuuito tímido. Ameaçou uma tentativa de “vamos tentar de novo”, mas muuuito tímido. Tentou a aproximação de corpos , mas, bem, muito, muito tímido. E eu que sou exatamente o contrário disso, brinco com quem tem esse tipo de atitude. Quando tô segura, então, ninguém me segura.

Vem uma força interior que me faz subir no salto 15, ter uma barriga chapada e um cabelo ao vento. Ah, e detalhe: ando até em slow motion só para humilhar mesmo.

“Bia! Oi, Bia! Que bom que você chegou. Lembra do Ricardo?” Minha amiga não é tão dissimulada quanto eu, e acabou sendo simpática. Deu dois beijinhos e me arrastou pra mesa de banco alto do lado de fora. A desculpa poderia ter sido “quero um cigarro e aqui dentro não dá, né, Juliana? Você não sabe disso?” Mas não foi.

Bia só olhou pra mim e soltou um sorriso largo e um olhar cúmplice. “Vamos, Rafael tá te esperando lá na frente”.

Beijo, querido.


Tchau, até a próxima. 



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Se há amor, resista

 

Se há amor, resista

“Não há amor que resista”. Foi o que ele me disse quando a primeira briga começou. Ok, não foi a primeira, mas a mais séria de todas. Nunca fomos um casal de discutir ou ter que conversar sobre todas as coisas. Alguém sempre cedia.

            Mas desta vez eu que não cedo. Cansei de ceder, me entende? Cansei de me calar. Cansei de pensar que ia passar e tudo ia ficar bem. Cansei de tentar de novo. Cansei de esquecer e ter que passar por cima. Decidi, ergui a cabeça e falei. Não falei muito, por toda a eternidade nem o fiz lembrar-se dos sermões de sua mãe. Mas, sim, falei de forma objetiva. Direta como nunca tinha sido em todos esses anos.

            Ele não retrucou. Não respondeu nem esboçou reação. Ele só saiu. E me deixou sozinha. Essa foi a pior parte, embora, no fundo, tenha gostado. Me senti aliviada por ele ter dado as costas. Afinal, era melhor encerrar por ali. Não sabia onde aquilo iria parar.

            Foi ali que o alivio virou desespero. Ele havia ido.

Balela, pensei.

Respirei fundo e mantive a postura ereta. Por dentro buscava forças enquanto recuperava o ar e procurava as palavras que se afugentaram.

Passou.

Tomei coragem.

E fui a sua procura.

Quando olhei pela fresta da porta – do nosso quarto – o vi deitado com os olhos fixos no teto branco.

Não pensei.

Fui até ele.

Cheguei perto. Encostei. Puxei seu queixo em minha direção. E eu, cúmplice e pecadora, deixei que os meus lábios tocassem nos seus.

Devagar.

Um segundo de olhos abertos. O segundo do perdão. Nos segundos seguintes, só amor.



O Samuel, aquele... da academia!

 

O Samuel, aquele... da academia!

Cheguei agitada e fui correndo pro vestuário pra colocar meu uniforme da saúde: calça legging e top. O dia foi corrido no trabalho e estava precisando de um pouco de endorfina para desestressar. Nada que uma boa corrida para esquecer dos problemas e, depois, um banho frio pra acordar de novo.
Mas, no meio do caminho tinha o Samuel.
Samuel estava lá, todo todo. Me olhava diretamente. Negro. Alto. Cheirando a homem. O suor escorrendo pelo rosto. E que rosto! Samuel é lin-do! E me deixa sem palavras. É, ele me deixa sem graça quando me olha daquele jeito.
Eu passei batida por ele. Meu olhar se perdeu.... olhei pro chão, pro teto... não faço ideia pra onde olhei, mas não foi diretamente pra ele. E Samuel é tão grande que mesmo não olhando nos olhos dele, com certeza eu reparei nos braços e nas pernas saradas já pensando que elas me enrolariam à noite e pesariam na minha lordose depois de uma noite de sexo suado.
Devo ter ficado vermelha. Acho até que ele gosta de me ver assim. Deve achar sexy. Deve achar que pode me encurralar a qualquer momento na academia, acender as luzes que piscam no escuro da sala de spinning e explorar todos os espelhos.
Lá fui eu pra esteira. Foi só eu conectar na minha play list – escolhida a dedo pelo meu amigo gay, o de(quase) todas as horas, sabe? – que Samuel me aparece. Que susto! Ele precisa aparecer logo assim, do nada, do meu lado?
Se inclinou na minha frente e lançou um “oi”. Gelei.
Pela minha timidez, preferiria uma abordagem pelo whatsapp. Mas, ok, estamos aqui; então vamos em frente.
Eu retribuí: “oi”. E ele, direto que só: “vai usar só por meia hora”?
Sem palavras.
Dessa vez, fui eu que inclinei pra frente. Diminuí nossa distância e tirando os fones do ouvido, falei: “desculpa... o quê”?
Samuel manteve o olhar e sem piscar me perguntou novamente se eu iria ficar na esteira por tão pouco tempo. Eu tentei responder, mas ele não me deu chance. A essa hora eu já devia estar roxa, mas, por dentro, era um poço de curiosidade. Era o que me movia. O tesão e a expectativa do que aconteceria.

Não demorou um segundo para irmos para a lanchonete. Eu pedi um suco de laranja com cenoura sem açúcar e ele uma vitamina que não sei nem quantos ingredientes tinham. Quando o pedido chegou, pensei que seria proporcional ao seu tamanho. E, claro, se fazia jus a tudo mesmo!!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre Viver


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quando eu digo "não" querendo dizer "sim"




Quando eu digo "não" querendo dizer "sim"

Quando me pego pensando em você me pergunto se entendeu de fato o que eu disse. É justamente nessa hora que te acho burro, limitado, ignorante. Como um homem não percebe que o meu ‘não’ é um ‘vem, me aquece’? Como você, que me conhece como ninguém, não consegue distinguir pelos meus olhos o tempo certo entre o ‘não’ e o pensamento latente do ‘me pega’?
Se fosse ‘não’ não te esperaria com o frio na barriga, não te colocaria a mesa do jantar, muito menos comeria com você. Se fosse como acha não me depilaria, não me vestiria para você, não te fazia gozar. Estaria com a cara virada, indiferente às suas reações, criando desculpas e pedindo conscientemente ‘goza logo’.
Dormiria trancada em mim mesma e sentiria com aflição o peso das suas pernas nas minhas. Reclamaria da sua mania de falar dormindo, reclamaria do banho rápido, reclamaria da conta não paga, reclamaria dos seus horários estranhos de trabalho, reclamaria, reclamaria e reclamaria.
Até o dia em que ‘tudo bem’. Tudo bem se você chegar tarde... ou cedo demais, tudo bem se não for dormir na mesma hora que eu, tudo bem se sair e não perguntar se quero ir.
Não!
Eu tô bem com você aqui.
Não, não vai!
Não, fica!
Não, me agarra!
Não, me beija!
Não, faz assim!
Não é mais.
Não mais.
Não mais planos separados. Não mais rostos e direções tangentes mas distintas, não mais cinema sozinha. Não mais cama fria. Não mais mãos largadas.
Sim, vem!
Sim, tô aqui!
Sim, sou sua!
Sim, me ama!

Que eu sou toda ‘sim’, pro que der e vier, para a vida toda, haja o que houver.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Saudade


Saudade

Foi assim: mandei na lata. Como dizem os meus amigos paulistas, mandei ver!

A mensagem foi simples: “saudade”.

Eu disse a eles que não era preciso ter coragem pra dizer isso. Aliás, eu fui muito sucinta. Eu gostaria de ter escrito muito mais.

Por trás daquele texto, estava toda a minha vontade em dizer que ele faz parte da minha vida desde quando eu levanto até a hora de dormir. E que mesmo assim peço aos guias espirituais que eu sonhe com ele só pra matar o desejo do cheiro e do toque.

Queria dizer que eu sinto o movimento da cama quando é hora dele ir trabalhar. Que quando eu levanto no meio da noite ainda o faço com delicadeza para não lhe acordar. Que eu sussurro um ‘bom dia’, mesmo não o levando até a porta para mais um dia de trabalho. Meu sono é pesado, ele sabe. Mas que por trás da minha tentativa de abrir o olho e naquele resmungar pela manhã está o maior desejo do mundo para que ele seja o destaque no trabalho, o homem mais cobiçado e competente já visto e que ele retorne pra casa cheio de novidades, questionamentos e certezas que iremos descobrir juntos. Ele é um dos melhores para conversar, inclusive. Me indica pontos de vista novos. Está longe de concordar tudo comigo. Confesso: odeio gente que concorda sempre comigo.

Ele sabe concordar nas horas certas.

Foi assim que eu me apaixonei.

E a falta que sinto é ainda maior que seu beijo acalorado, que seu beijo tímido na frente dos familiares, que seu beijo me chamando pra ser sua, que seu beijo me pedindo conselhos e cafunés. Ele é tudo isso. E mais.

É ele que me faz dormir toda noite. É a nossa intimidade que faz meu corpo descansar e ficar totalmente encaixada no dele. É ele que lembra das minhas questões existenciais quando me deixa irritada. É ele que se cala esperando que eu me cale também.

É ele que traz a mim a minha maneira de viver e de ver a vida. Não é por ele, mas sim com ele.

Os meus amigos cariocas diriam, “nossa, branca, mas tu é verdadeira mermo. Ô mulher pra falar tudo que pensa”.


Eu só penso: “aahhh se eu falasse tudo que eu penso”.