terça-feira, 21 de junho de 2016

O amor cega

 
O amor cega

O amor cega.

Já o meu, na contramão, tece e mantém os olhos bem abertos. Eu o vi e reconheci. Sabia que ali morava a troca, as realizações, os aprendizados e as carências. Ali estava meu melhor companheiro.

Olha, mas olha mesmo! Aqui, já tão perto, está minha paixão.

Mais que carinho, afinidade, gostos similares... meus olhos não viram um namorado, nem um melhor amigo. Embora não seja fácil achar um bom parceiro de viagem, mas esse seria mais. Guardávamos já muitas historias em terras distantes e emoções tão fortes quanto por aqui.

E o sentimento eu acertei logo de cara. Ora, diriam os tolos, como sabe?

Eu sei! E isso basta!

Mentia.

Eu sei por associação. Sei porque já senti, porque já vivi , porque já amei.

Ao contrario da primeira vez, meu amor foi à primeira vista. Eu, boba, desacreditava desse jeito romântico de conduzir e explicar as coisas. Enganei a mim mesma.

Meus olhos viram! E gostaram rapidamente do que estava à frente. E, digo mais, gostaram tanto que nunca mais se atreveram a tirar de você.


No fim, eu aprendi que o que meus olhos veem, o meu corpo sente inteiro sente instintiva e imediatamente. 



terça-feira, 14 de junho de 2016

Entre coordenadas e liberdades



Entre coordenadas e liberdades

Já estava quase indo embora”... sim, essas foram as primeiras palavras – austeras – que pronunciei para o Felipe. Ele tinha demorado muito – ok, dez minutinhos além do combinado – e eu já estava de saco cheio de esperar. Ele deve ter me achado ou maluca ou cheia de atitude, já que nos papos pela internet eu não tinha mostrado as garras.
Não me lembro do que ele disse, mas de qualquer forma, contornou bem a situação. 

Fomos andando sem muitas palavras e nos sentamos do lado de fora de um bar que outrora foi refúgio meu e de outros pares.

Hora de ressignificar!

Conversamos sobre a vida, sobre o filho dele, sobre as viagens, nas furadas que nos metemos em viagens, o que eu teria feito se fosse ele e o que ele fez sendo ele mesmo. No final, acertamos os signos e ascendentes e nos beijamos. Felipe só faltou ser condescendente com sua lua em leão, o que de longe não é o meu forte.

Marcamos o segundo encontro. Eu não estava animada, muito menos curiosa. O que me encorajava no início não fez nem cosquinha dessa vez. Afinal, o inesperado, a expectativa e o desconhecido é o que me moviam na noite em que nos conhecemos. Parece que tudo já perdera a graça.

Mas, dei a oportunidade.

Felipe passou às oito horas para me resgatar de um aniversário de uma amiga. O clima estava bom e, por um momento, pensei em dar o bolo no gatinho. Mas, tamanha era a vontade dele em me ver... que resolvi respeitar o moço. Me aguardavam um beijo e um abraço daqueles difíceis de desgarrar. 

Gostoso. 

E assustador.

Sufocante.

E ameaçador.

Deu medo do futuro e um filme passou pela minha cabeça. O dominador leonino intimidaria toda e qualquer liberdade da mulher taurina.

Criei meiguice.

E criei dissimulações.

Vieram fraudes.

E choveram pretextos.

Ao fim, criaram-se feras.


E desenvolvi asas.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desapega!


Desapega!

Desapega de mim. Para de me procurar em horários impróprios. Sabia que eu durmo? Que eu trabalho? Que eu tenho meus casos e não quero ser incomodada na minha intimidade?

Passou. Desapega. Não quero encontrar você na saída do curso. Não quero ver tua cara. Não quero surpresa. Não quero preocupação quando sua sogra não tá bem.

A minha vida tá ótima. Sem você. Não entendeu que a minha vida é sem a sua? Já foi. Já foi a mesma. Já foi uma só.

Não é mais. Eu e você não somos mais. Me deixa livre. Me deixa sofrer sozinha. Você perto não ajuda. Me deixa respirar. Me deixa falar com quem eu quero, usar o vestido que eu escolhi, voltar pra casa a hora que me der na telha.

Desapega! E larga meu braço, eu tô pedindo.

Não me machuca.

Me esquece, me larga e segue tua vida.

Apaga meu número do seu celular, esquece a hora que acordo e do meu cansaço no fim do dia. Não pergunta como estou.

Não quero você perto. Não quero saber se engordou, se emagreceu, se planeja viajar, se comeu direito, se comprou a blusa que queria nem qual bar você anda frequentando.

Desapega! Se cruzar comigo, atravessa a rua. Finge que não me conhece.

Já falei para me largar.

Larga, tá me machucando.

Vai embora! E leva contigo tudo que me fez apaixonar. Vai com esse sorriso de canto de boca, com suas ideias revolucionárias, com seu feminismo arrebatador. Não quero seu olho no meu. Nem sua mão na minha.

Vai. E não vira.

Vai!

Já falei pra ir?


Já foi?



segunda-feira, 28 de março de 2016

Debaixo dos caracóis


Debaixo dos caracóis

Seus cabelos! Ah, esses cabelos. Tem cabelo por toda a casa. Como é que pode?

Luuuuuuuiiiiiiiiizzzzzzzzzz!

- Quê que você faz pra cair tanto cabelo desse corpitcho?

- Eu?...

- É... não tá vendo? Tem pêlo por toda a casa. Quero ver se um dia eu levar um tombo por causa disso, dessa sujeira acumulada.

- Mas... tombo? Não, não pode...

- E não é pentelho, não. É cabelo mesmo. Como é que pode , Jesus?

- Eu preciso...

- Precisa!!!  Ah, precisa. Se precisa, né, Luiz? Tomar uma providência.

- Tava pensando que...

- Por que você não vai ao médico? Ele vai dar um jeito nisso rapidinho. Aliás, por que ainda não foi? Afinal, esses cabelos não começaram a cair agora, né? Eles sempre caíram? Por que só a gora que eu tô percebendo isso? Tá sujando a casa toda! Luuuiiizzzzz

- Oi, tô aqui.

- Pega lá a pá.

Ele faz que sim com a cabeça e vai até a área como um menino obediente.

- Você almoçou direito hoje?

- Sim, comi a quentinha que você preparou pra mim.

- Ah, é. Tava gostosa?

- ô!

- Tem mais. Você quer mais?

- Tem? Se tiver eu quero!

- Tem chuchu, deixa essa pá aí. Deixa tudo aí de qualquer jeito.

- Mas, mulher...


Os segundos param.

Ela balbucia lu-iz.

Antecede num suspiro, quase que um soluço incontrolável, e o chama. Luuuizzzzzzzz!


Eu já devia prever que a vida de recém-casado é assim, em cada surpresa uma transa. 



segunda-feira, 21 de março de 2016

Quanto tempo dura uma mentira?


Quanto tempo dura uma mentira?


O tempo é capaz de aplacar tudo? Não? Então, o que devemos fazer quando vemos que já passou tempo demais e temos que resolver as coisas?

Mas, pera. Quem disse que é tempo demais? Em que fração de segundo você pensou que poderia julgar o tempo? O que é muito pra você pode ser pouco pra mim.

Dois anos! Dois anos que a mãe dele morreu e você ainda não contou a verdade.

É difícil... é difícil falar disso. É difícil falar com ele. É difícil falar disso com ele.


- - - A retórica de um pai perdido tentando consertar o tempo que passou escondendo a real causa da morte da mãe de Conrad é angustiante. O rapaz é um adolescente problemático, fechado ao diálogo, tipicamente perdido, apaixonadamente cego, enlouquecidamente inocente e extremamente triste. Um sentimento que transborda o olhar. Vê-se no jeito de andar, nas costas curvadas e nos gestos tímidos. É como se Conrad nunca soubesse onde colocar as mãos. Ele nunca está à vontade. Com exceção de quando dança com a música alta, trancado em seu quarto-refúgio. Seu momento – e sempre a sós.


“O tempo suspenso (...) Segundos que não eram já segundos” – o que passou pela cabeça dela quando percebeu que o acidente já era inevitável?

- - - Conrad cria um repertório próprio para os últimos momentos de vida da mãe. A casa, o corredor, os filhos, os cheiros, as lembranças, os erros...? O que Isabelle teria pensado antes de bater seu carro freneticamente de frente com um caminhão em alta velocidade? O mundo parara. O tempo parara?



Que tipo de amor minha mãe me deixou?

- - - Não sei. Não sei mais sentir. Sinto falta todo o tempo e qualquer literatura me remete a ela. Minha mãe sorria, abraçava – só que não espalhava alegria pela casa. Mas nada que a fizesse uma mulher depressiva. Era determinada. E bem famosa, tanto que a Wikipedia faz menção a ela, sabia? Minha mãe era uma fotógrafa incrivelmente sensível. Mas, antes de tudo, minha mãe. Para meu pai, uma egoísta incurável. Que excursionava em guerras para obter os melhores cliques. Apesar disso, era também um admirador de sua obra.         

Talvez a maior verdade proferida no filme fosse justamente do amante de Isabelle, veja que paradoxal: “Você sempre tem escolhas. Mas não pode planejar o que vem depois dessa escolha”.

Fica o fim: tudo, na verdade ou na mentira, sempre se ajeita.



*** Sobre o filme ‘Mais Forte que Bombas’, que estreia no Brasil em 7 de abril. O longa tem direção de Joachim Trier.